Em 12 de novembro de 1925, cinco músicos entraram no estúdio da OKeh em Chicago para gravar três lados de 78 rotações. Era a primeira vez que o nome de Louis Armstrong aparecia num disco como líder. O detalhe curioso é que aquela banda quase não existia fora dali. Com uma ou duas exceções, os Hot Five nunca tocaram juntos em público: eram um grupo de estúdio, montado para gravar e desfeito ao fim da sessão. O banjoísta Johnny St. Cyr lembraria depois o clima daqueles dias, dizendo que ninguém se sentia pressionado, e que Armstrong sempre fazia questão de dar espaço a cada um.
Armstrong tinha 24 anos e vinha de um ano em Nova York, na orquestra de Fletcher Henderson, a melhor banda negra de baile do país. Voltou a Chicago decidido a montar algo próprio. A gravadora deixou a banda em paz, e o resultado foram 89 lados gravados entre 1925 e 1928, com três formações diferentes. Ali dentro acontece a mudança mais importante da história inicial do jazz. O estilo de Nova Orleans, aquele contraponto coletivo em que ninguém se destaca sobre os outros, sai desses discos desmontado. No lugar dele fica o solista.
Dá para ouvir isso acontecendo em etapas. Em fevereiro de 1926, no meio de "Heebie Jeebies", Armstrong larga a letra e canta sílabas sem sentido pelo resto do refrão. Ficou conhecido como o primeiro scat gravado da história, e vale corrigir: há exemplos anteriores em disco, e a história romântica de que a letra teria caído no chão durante a tomada nunca foi comprovada. O que importa não é a primazia, é o que ele faz com a voz, tratando a garganta como mais um instrumento de sopro.
Em maio de 1927, com a banda expandida a sete pela chegada da tuba e da bateria, vem "Potato Head Blues". O solo final é tocado em stop time, um recurso em que a banda para de marcar o compasso e dá apenas uma pancada de acorde a cada dois tempos, deixando o resto em silêncio. O efeito para quem ouve é de um corredor vazio: o cornetim fica exposto, sem nada por baixo para se apoiar, e cada frase que Armstrong constrói ali existe por conta própria. Nenhum músico de jazz tinha sustentado um solo assim antes.
E em 28 de junho de 1928 chega "West End Blues", que abre com doze segundos de trompete sozinho, sem banda, sem compasso, sem rede. Aqui a história tem uma ironia que se perde quando o disco é contado como obra isolada: a música é de King Oliver, mentor de Armstrong em Nova Orleans e o homem que o levara para Chicago em 1922. Oliver a gravou primeiro, dezessete dias antes. É a versão do aluno que todo mundo lembra.
Seria desonesto tratar as 89 gravações como uma sequência de obras-primas. Boa parte delas é material de vaudeville, com diálogos cômicos e refrões bobos que envelheceram mal. O piano de Lil Hardin Armstrong cumpre a função e pouco mais. O trombone de Kid Ory, que soava perfeitamente adequado numa banda de Nova Orleans, soa rudimentar ao lado do que Armstrong estava inventando. Essa distância é parte do interesse do conjunto: ouve-se um músico crescendo mais rápido do que a banda em volta dele consegue acompanhar.
A solução veio em 1928, quando Armstrong trocou os companheiros por uma formação nova e encontrou em Earl Hines um pianista que pensava em frases longas como ele. Os dois gravaram "Weather Bird" em dezembro daquele ano, já fora da série dos Hot Five, um dueto sem banda nenhuma, dois instrumentos se perseguindo e se corrigindo em tempo real. O jazz coletivo de Nova Orleans tinha ficado pequeno demais. O que vem depois, a era das grandes orquestras e dos solistas de nome próprio, já estava inteiro naqueles dois minutos e quarenta.
Faixas
As 53 gravações creditadas aos Hot Five e aos Hot Seven, feitas para a OKeh em Chicago entre 12 de novembro de 1925 e 5 de julho de 1928, na ordem das sessões. A data ao lado de cada título é a da gravação. No mesmo período Armstrong gravou outros lados acompanhando cantoras e sob outros nomes de banda, entre eles "Weather Bird", o dueto com Earl Hines de dezembro de 1928, e esses ficam de fora desta lista por não pertencerem à série.
Hot Five, 1925 e 1926
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01 - My Heart (Lil Hardin Armstrong) - 12 de novembro de 1925
02 - Yes! I'm in the Barrel (Louis Armstrong) - 12 de novembro de 1925
03 - Gut Bucket Blues (Louis Armstrong) - 12 de novembro de 1925
04 - Come Back, Sweet Papa (Paul Barbarin e Luis Russell) - 22 de fevereiro de 1926
05 - Georgia Grind (Spencer Williams) - 26 de fevereiro de 1926
06 - Heebie Jeebies (Boyd Atkins) - 26 de fevereiro de 1926
07 - Cornet Chop Suey (Louis Armstrong) - 26 de fevereiro de 1926
08 - Oriental Strut (Johnny St. Cyr) - 26 de fevereiro de 1926
09 - You're Next (Louis Armstrong) - 26 de fevereiro de 1926
10 - Muskrat Ramble (Kid Ory) - 26 de fevereiro de 1926
11 - Don't Forget to Mess Around (Paul Barbarin) - 16 de junho de 1926
12 - I'm Gonna Gitcha (Lil Hardin Armstrong) - 16 de junho de 1926
13 - Droppin' Shucks (Lil Hardin Armstrong) - 16 de junho de 1926
14 - Who'sit (Richard M. Jones) - 16 de junho de 1926
15 - The King of the Zulus (Lil Hardin Armstrong) - 23 de junho de 1926
16 - Big Fat Ma and Skinny Pa (Richard M. Jones) - 23 de junho de 1926
17 - Lonesome Blues (Lil Hardin Armstrong) - 23 de junho de 1926
18 - Sweet Little Papa (Kid Ory) - 23 de junho de 1926
19 - Jazz Lips (Lil Hardin Armstrong) - 16 de novembro de 1926
20 - Skid-Dat-De-Dat (Lil Hardin Armstrong) - 16 de novembro de 1926
21 - Big Butter and Egg Man (Louis Armstrong e Percy Venable) - 16 de novembro de 1926
22 - Sunset Cafe Stomp (Louis Armstrong e Percy Venable) - 16 de novembro de 1926
23 - You Made Me Love You (Louis Armstrong e Percy Venable) - 27 de novembro de 1926
24 - Irish Black Bottom (Louis Armstrong e Percy Venable) - 27 de novembro de 1926
Hot Seven, maio de 1927
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01 - Willie the Weeper (Marty Bloom e Walter Melrose) - 7 de maio de 1927
02 - Wild Man Blues (Louis Armstrong e Jelly Roll Morton) - 7 de maio de 1927
03 - Alligator Crawl (Andy Razaf e Fats Waller) - 10 de maio de 1927
04 - Potato Head Blues (Louis Armstrong) - 10 de maio de 1927
05 - Melancholy Blues (Marty Bloom e Walter Melrose) - 11 de maio de 1927
06 - Weary Blues (Artie Matthews) - 11 de maio de 1927
07 - Twelfth Street Rag (Euday Bowman) - 11 de maio de 1927
08 - Keyhole Blues (Wesley Wilson) - 13 de maio de 1927
09 - S.O.L. Blues (Louis Armstrong) - 13 de maio de 1927
10 - Gully Low Blues (Louis Armstrong) - 14 de maio de 1927
11 - That's When I'll Come Back to You (F. Biggs) - 14 de maio de 1927
Hot Five, setembro e dezembro de 1927
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01 - Put 'Em Down Blues (Louis Armstrong) - 2 de setembro de 1927
02 - Ory's Creole Trombone (Kid Ory) - 2 de setembro de 1927
03 - The Last Time (Ewing e Martin) - 6 de setembro de 1927
04 - Struttin' With Some Barbecue (Louis Armstrong) - 9 de dezembro de 1927
05 - Got No Blues (Lil Hardin Armstrong) - 9 de dezembro de 1927
06 - Once in a While (William Butler) - 10 de dezembro de 1927
07 - I'm Not Rough (Louis Armstrong e Lil Hardin Armstrong) - 10 de dezembro de 1927
08 - Hotter Than That (Lil Hardin Armstrong) - 13 de dezembro de 1927
09 - Savoy Blues (Kid Ory) - 13 de dezembro de 1927
Hot Five, 1928, com Earl Hines
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01 - Fireworks (Spencer Williams) - 27 de junho de 1928
02 - Skip the Gutter (Spencer Williams) - 27 de junho de 1928
03 - A Monday Date (Earl Hines) - 27 de junho de 1928
04 - Don't Jive Me (Lil Hardin Armstrong) - 28 de junho de 1928
05 - West End Blues (King Oliver e Clarence Williams) - 28 de junho de 1928
06 - Sugar Foot Strut (Charlie Pierce) - 28 de junho de 1928
07 - Two Deuces (Lil Hardin Armstrong) - 29 de junho de 1928
08 - Squeeze Me (Fats Waller e Clarence Williams) - 29 de junho de 1928
09 - Knee Drops (Lil Hardin Armstrong) - 5 de julho de 1928
Créditos
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Louis Armstrong, cornetim, depois trompete, e voz (todas as sessões)
Kid Ory, trombone (Hot Five, 1925 a 1927)
Johnny Dodds, clarinete (Hot Five e Hot Seven, 1925 a 1927)
Lil Hardin Armstrong, piano (Hot Five e Hot Seven, 1925 a 1927)
Johnny St. Cyr, banjo (Hot Five e Hot Seven, 1925 a 1927)
John Thomas, trombone (Hot Seven, maio de 1927, no lugar de Kid Ory)
Pete Briggs, tuba (Hot Seven, maio de 1927)
Baby Dodds, bateria (Hot Seven, maio de 1927)
Lonnie Johnson, violão (sessões de dezembro de 1927)
Earl Hines, piano (sessões de 1928)
Fred Robinson, trombone (sessões de 1928)
Jimmy Strong, clarinete (sessões de 1928)
Mancy Carr, banjo (sessões de 1928)
Zutty Singleton, bateria (sessões de 1928)
Nenhuma das duas plataformas traz exatamente estas 53 gravações. A edição do Apple Music reúne a série completa e acrescenta material posterior, de 1928 a 1930, distribuído em quatro discos; a do Spotify traz um recorte menor. A lista acima documenta as sessões, não o conteúdo de uma edição específica.
Ouvir no Spotify Ouvir no Apple MusicConheça também
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King Oliver's Creole Jazz Band, "The Complete Set" (1923)
Armstrong como segunda corneta, dois anos antes, dentro do estilo coletivo que ele viria a desmontar. É o antes e o depois no mesmo par de ouvidos.
Jelly Roll Morton, "Jelly Roll Morton, Volume 1" (1926)
Os mesmos anos, a aposta oposta: onde Armstrong entregava tudo ao solista, Morton apostava na arquitetura do arranjo escrito.
Bix Beiderbecke, "Bix & Tram" (1927)
O contemporâneo que levou o cornetim para o lado oposto, lírico e contido, onde Armstrong ia de peito aberto.
Coleman Hawkins, "Body and Soul" (1939)
Onde a ideia do solista chegou treze anos depois, num saxofone que dispensa o tema e improvisa a peça inteira.
Este disco pertence à fase Dixieland, na seção "Por onde começar".

