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Conheci  Moacir Santos em 2004. Era a gravação de um piloto para um programa da TVE de Alagoas e ele foi levado para falar de música e da sua carreira. O programa nunca foi ao ar, mas foi uma rara oportunidade de conhecer o mestre. Anos depois, reencontrei-o no Bar Trilha do Mar, onde tocávamos Jazz e Bossa Nova nas tardes de sábado.  Ele terminou dando uma aula de harmonia ali, ao vivo, para todos os presentes. Tomou uma garrafa de vinho, conversou bastante com os músicos e pediu: “Nunca parem de tocar”. Disse que a música ao vivo estava cada vez mais rara em todas as partes do mundo. Foi embora.

Mestre dos mestres Moacir saiu muito cedo do interior para Recife, depois seguiu para Salvador e Rio de Janeiro. Daí para os Estados Unidos e para o mundo.

Difícil escolher um adjetivo que o descreva. Geralmente, chamamos de coisas aquilo que não pode ser descrito em palavras. Gravado em 1964 e lançado em 1965, Coisas, foi o primeiro disco de Moacir no Brasil.

No álbum, o instrumentista tece essências musicais de diversas naturezas, tambores, cantos, enlaces de instrumentos de sopro. Em April Child, que também é cantada pelo Mestre, é possível notar o bom gosto dos arranjos e o vigor dos contrapontos, onde os instrumentos conversam  e se fundem em timbres raros e extraordinários. Outras canções surgem sob a alcunha de “Coisa” seguida de uma numeração. É assim com Coisa nº 6. Nela, Moacir põe seu saxofone barítono à frente e provoca uma grande festa de ritmo e alegria.

Essa é a magia do grande arranjador. Criar novos sons da fusão dos instrumentos. O gene de Moacir foi o mais importante passageiro desse navio chamado África, que aportou no Brasil trazendo os escravos.  A sua música foi o link para o aparecimento de diversos músicos da nossa geração.

Com uma criatividade ímpar, ele se tornou ídolo de vários músicos da MPB, como Gil, Milton, Djavan, Mario Adnet, Zé Nogueira, Cristovão Bastos, Teco Cardoso e tantos outros. Conquistou devotos, a exemplo de Ed Motta. Coisa fácil de se compreender.

Desde a confecção da capa até a montagem e embalagem. As negociações do álbum eram feitas diretamente com os lojistas, em seus shows e em viagens por quase todo o Brasil.

Certa feita, a cantora Carol Saboya, que é filha de Antonio, contou-me passagens importantes da carreira dele e disse que tudo nesse disco foi artesanal mesmo.

Assim como era feita a música instrumental ao redor do mundo nessa época.

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