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Glossário do Jazz

Como falar a língua do jazz

Este glossário reúne os termos mais usados no universo do jazz: os nomes dos estilos, os jargões dos músicos, os conceitos musicais e as expressões que aparecem quando alguém fala sobre essa música com seriedade. Cada verbete foi escrito para funcionar em dois sentidos: quem ainda não conhece o assunto vai entender de primeira, e quem já tem alguma familiaridade vai encontrar a definição precisa.

Quando um termo técnico entra em cena, ele sempre vem acompanhado do que ele faz o ouvido sentir, não apenas do que ele significa numa partitura. Os termos estão em ordem alfabética. Palavras em inglês aparecem como no original quando são de uso consagrado no mundo do jazz, mesmo em português.

Índice

A

Acid Jazz

Estilo que surgiu no final dos anos 1980, principalmente em Londres e Nova York, misturando jazz com funk, soul e hip-hop. A marca registrada é o groove intenso, o uso de samples (trechos de discos antigos reproduzidos em loop) e a mistura de instrumentos ao vivo com batidas eletrônicas. O grupo britânico Us3, que usou gravações históricas do selo Blue Note como base para faixas de hip-hop nos anos 1990, é um dos exemplos mais conhecidos.

Ad libitum (ad lib)

Do latim "à vontade". Em música, significa que o músico tem liberdade para tocar da forma que quiser naquele trecho, sem seguir uma partitura ou uma indicação rítmica específica. No jazz, onde a improvisação é central, quase tudo tem um pouco de ad lib, mas o termo costuma aparecer especialmente em momentos em que o solista fica completamente livre, sem acompanhamento ou sem tempo marcado.

Afro-Cuban Jazz

Fusão que combina a improvisação e a harmonia do jazz americano com os ritmos vindos de Cuba e da África. O resultado é uma música de grande energia rítmica, com instrumentos de percussão como congas, bongôs e timbales criando texturas que o jazz de big band não tinha. Dizzy Gillespie e o percussionista cubano Chano Pozo foram pioneiros nesse encontro, especialmente a partir da gravação de "Manteca" em 1947.

Alteração (nota ou acorde alterado)

Modificar uma nota de um acorde para cima ou para baixo por meio tom, saindo do que seria esperado naquela escala. No jazz, isso é feito para criar tensão, para colorir o som de uma forma mais expressiva ou para preparar uma resolução.

Andamento

A velocidade com que a música é tocada. No jazz, o andamento pode ser lento (ballad), médio ou rápido (up-tempo), e essa escolha muda tudo: o mesmo tema pode soar íntimo e melancólico num andamento lento e eufórico num rápido.

Arco

A técnica de tocar o contrabaixo passando o arco pelas cordas, em vez de pinçar as cordas com os dedos. No jazz, o arco aparece especialmente em baladas, quando o instrumentista quer um som mais sustentado e próximo de um instrumento de sopro.

Arranjo

O trabalho de adaptar uma música para um conjunto específico de instrumentos, decidindo quem toca o quê, quando e como. Arranjos podem ser escritos em partitura (como os das big bands) ou combinados oralmente entre os músicos.

Arpejar (arpeggio)

Tocar as notas de um acorde em sequência, uma após a outra, em vez de todas ao mesmo tempo. O nome vem de "harpa", em italiano. No jazz, o arpejo é uma ferramenta fundamental de improvisação.

Atonalidade

Música que não tem um centro tonal fixo: nenhuma nota funciona como "casa", como ponto de repouso para onde tudo converge. No jazz, a atonalidade apareceu de forma mais sistemática no Free Jazz dos anos 1960. Para quem está acostumado com o jazz mais tradicional, a primeira escuta de música atonal pode causar desorientação, porque o ouvido procura um centro que a música deliberadamente não oferece.

Avant-garde (vanguarda)

Denominação genérica das formas mais experimentais e livres do jazz contemporâneo, especialmente a partir de meados dos anos 1960. O termo é emprestado do francês e significa "dianteira". No jazz, identifica músicos que experimentam com formas, timbres e estruturas que rompem com o que era aceito até então. Ornette Coleman, Cecil Taylor e, em certa fase, John Coltrane são os nomes mais citados.



B



Ballad

Uma peça em andamento lento, geralmente de caráter lírico e emocional. No jazz, a ballad é o espaço em que o músico tem mais liberdade para trabalhar o fraseado, o timbre e a expressão. Miles Davis e Chet Baker são referências no jazz de ballad: o que os dois fazem com o silêncio entre as notas é tão importante quanto as próprias notas.

Bebop (bop)

O primeiro grande estilo moderno do jazz, desenvolvido nos anos 1940 por Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e Kenny Clarke. Marcado por andamentos muito rápidos, harmonias densas com notas alteradas e fraseado longo e irregular. Era uma música feita para ser ouvida com atenção, não para dançar. O nome vem de uma onomatopeia: Gillespie costumava cantarolar o ritmo de suas composições com um floreio de duas sílabas que soava como "bee-bop".

Beat

A pulsação básica da música, o pulso que o pé bate naturalmente quando a gente ouve. No jazz, aparece em expressões como "two beat" e "four beat". "Playing behind the beat" descreve a técnica de tocar ligeiramente atrasado em relação ao tempo, criando uma sensação de maior relaxamento e suingue.

Big band

Orquestra de jazz composta geralmente entre 14 e 20 músicos, divididos em naipes: metais (trompetes e trombones), palhetas (saxofones e clarinetes) e seção rítmica (piano, contrabaixo e bateria). A big band foi o formato dominante da Era do Swing, nos anos 1930 e 1940.

Blue notes

As notas de "blues": a terça, a quinta e a sétima ligeiramente abaixadas em relação ao que a escala maior europeia esperaria. O efeito é de uma leve dissonância afetiva: a nota soa um pouco torta, carregada de emoção. São as blue notes que dão ao jazz esse caráter expressivo que não existe da mesma forma na música clássica europeia.

Blues

Gênero musical originado nas comunidades negras do Sul dos Estados Unidos no século XIX. Nasce do campo e da voz, da música de trabalho e dos lamentos dos escravizados. Sua estrutura básica é de 12 compassos divididos em três sequências de quatro, com as blue notes dando o sabor característico. O blues não é apenas um estilo musical: é uma das raízes fundamentais de todo o jazz.

Bluesman

O músico que tem o blues como matéria-prima central de sua expressão, seja cantando ou tocando instrumento. O bluesman carrega na música uma forma específica de contar história: concreta, pessoal, muitas vezes autobiográfica. No jazz, o blues nunca desapareceu completamente, e vários dos grandes jazzistas são descritos como "profundamente bluesmen" pela forma como tratam a frase e o timbre.

Blues shouter

O cantor de blues que se exprime de modo particularmente vigoroso e extrovertido, de forma quase gritada. Big Joe Turner e Jimmy Witherspoon são os exemplos mais citados. O blues shouter não é um cantor que não sabe controlar a voz: é um que escolhe deliberadamente a intensidade bruta como veículo de emoção.

Boogie-Woogie

Estilo de blues pianístico com uma figura rítmica obsessiva na mão esquerda (geralmente em oito colcheias por compasso, criando uma sensação de locomotiva), enquanto a mão direita improvisa por cima. Meade Lux Lewis, Albert Ammons e Pete Johnson foram seus maiores intérpretes.

Bossa Nova

Estilo musical brasileiro surgido no final dos anos 1950 no Rio de Janeiro, resultado do encontro do samba com o jazz americano. A batida de violão criada por João Gilberto, a harmonia elaborada de Tom Jobim e a poesia de Vinicius de Moraes são os três pilares do gênero.

Break

Um momento de pausa no acompanhamento coletivo em que um solista fica completamente sozinho por alguns compassos, improvisando livremente antes de a banda entrar de volta. O break cria tensão e surpresa: o ouvido fica sem o chão rítmico habitual e foca totalmente no que o solista vai fazer.

Bridge (ponte)

A seção de contraste dentro de uma música, geralmente a terceira seção num formato AABA de 32 compassos. Enquanto as seções A repetem a melodia principal, a bridge traz melodia e harmonia diferentes, criando variedade antes de voltar ao tema original.

Brass band (banda de metais)

As bandas negras de instrumentos de sopro do fim do século XIX em Nova Orleans, que tocavam em festas públicas, funerais e casamentos. São o embrião do jazz: era nessas bandas que músicos como Kid Ory e Louis Armstrong aprenderam o ofício.



C



Cadenza

Uma passagem em que o solista improvisa sozinho, sem acompanhamento de nenhum outro instrumento. O termo vem da música clássica europeia, onde designava o momento do concerto reservado ao virtuosismo do solista. No jazz, a cadenza aparece em momentos dramáticos de uma performance, especialmente no fim de um solo longo.

Cake-walk

Uma dança criada no fim do século XIX pelos negros americanos, originalmente como paródia dos modos refinados dos proprietários brancos. Os melhores dançadores ganhavam bolos como prêmio, de onde vem o nome. Sua música sincopada influenciou diretamente o ragtime e, por extensão, o jazz.

Call and response (chamada e resposta)

Uma das estruturas musicais mais fundamentais do jazz, herdada das tradições musicais africanas e das igrejas negras americanas. Um músico (ou naipe inteiro) toca uma frase, e outro responde imediatamente, como um diálogo. O Hard Bop dos anos 1950 usou muito esse recurso, especialmente em "Moanin'" de Bobby Timmons.

Changes (mudanças)

Termo jazzístico para a sequência de acordes de uma música. Quando um músico diz que vai "improvisar sobre os changes de Autumn Leaves", significa que vai criar uma melodia livre usando como base a sequência harmônica específica dessa canção. Conhecer os changes de um standard é o equivalente a conhecer o mapa de uma cidade.

Chimbal (hi-hat)

O par de pratos da bateria operado por um pedal de pé. O baterista pode mantê-los fechados (som seco e curto) ou abertos (som mais longo e ressonante). Jo Jones revolucionou o jazz ao transferir a marcação do tempo do bumbo para o chimbal, criando um pulso mais leve e fluido.

Chorus

Um ciclo completo da sequência de acordes de uma música. Se "Autumn Leaves" tem 32 compassos de acordes, cada vez que a banda percorre esses 32 compassos completos, isso é um chorus. Durante um solo, o improvisador pode tocar vários choruses seguidos.

Clave

Um padrão rítmico de dois compassos que funciona como eixo estrutural de toda a música afro-cubana. O nome também designa o instrumento de percussão (dois bastões de madeira que se batem) com que o padrão é tocado. A clave existe em duas versões principais: 3-2 e 2-3.

Combo

Um conjunto de jazz pequeno, de até oito músicos. O nome é uma abreviação do inglês "combination of musicians". O quarteto e o quinteto são os formatos de combo mais comuns no jazz moderno.

Comping (acompanhamento harmônico)

A técnica de piano, violão ou outros instrumentos harmônicos de tocar acordes por trás do solista, criando suporte harmônico e rítmico. O comping no jazz é interativo: o pianista responde ao que o solista está fazendo, deixando espaço quando ele está em frases longas, preenchendo quando ele pausa. É uma conversa, não um tapete.

Contrafato (contrafact)

Uma composição nova criada sobre a harmonia de uma música já existente, mas com melodia completamente diferente. No bebop, esse recurso era muito comum: "Ornithology" de Charlie Parker usa os acordes de "How High the Moon", e "Ko-Ko" usa os de "Cherokee".

Cool Jazz

Estilo que surgiu no final dos anos 1940 como reação ao calor e à velocidade do bebop. Prefere andamentos mais lentos ou médios, volumes mais baixos, timbres mais suaves e uma abordagem mais reflexiva à improvisação. As gravações do nonet de Miles Davis em 1949 e 1950, reunidas no álbum "Birth of the Cool", são o ponto de partida mais citado.

Créole

Descendentes de franceses e escravizados africanos, especialmente em Nova Orleans. Uma lei estadual de 1894 que fundiu créoles e negros numa única categoria racial foi um fator histórico importante para o nascimento do jazz: o encontro forçado entre o treino formal dos créoles e a sonoridade mais crua dos músicos sem formação clássica gerou a linguagem nova.

Cutting contest (disputa de corte)

Uma competição musical informal entre dois ou mais músicos, geralmente numa jam session, em que cada um tenta "cortar" o outro com frases mais inventivas, mais rápidas ou mais intensas. O cutting contest foi uma instituição do jazz desde Nova Orleans e chegou ao seu ápice nas jam sessions de Harlem nos anos 1940.



D



Descarga

Em jazz latino, uma sessão de improvisação coletiva no estilo cubano, sem roteiro combinado, em que os músicos exploram solos longos dentro de um framework rítmico afro-cubano. O equivalente cubano de uma jam session.

Dixieland

O estilo musical que nasceu em Nova Orleans na virada do século XIX para o XX. No Dixieland, todos os instrumentos improvisam ao mesmo tempo, criando um contraponto coletivo: o clarinete corre em frases ornamentadas, o trombone sustenta o baixo com um contraponto mais lento, e o cornetim puxa a melodia no meio. Ninguém é solista fixo; todos conversam ao mesmo tempo.

Double-time

Técnica em que o solista dobra a velocidade aparente de suas notas sem que o andamento da banda mude. A banda continua no tempo original, mas o solista cria a sensação de que a música acelerou. É uma maneira de criar intensidade e demonstrar virtuosismo.

Drive

No jargão jazzístico, tocar com vigor, garra e impulso rítmico. Uma banda "com drive" é uma banda que empurra a música para frente, que faz o ouvinte sentir o pulso no corpo. Art Blakey era particularmente elogiado pelo drive que dava às suas bandas.



E



Embocadura

A forma como um instrumentista de sopro posiciona e usa os lábios, a bochecha e os músculos faciais para produzir som. Uma boa embocadura permite ao músico controlar o timbre, a afinação e a dinâmica. É um dos elementos que mais diferencia o som de um músico para outro: dois trompetistas com o mesmo instrumento podem soar completamente diferentes pela embocadura.



F



Fake book (livro de cifras)

Uma coletânea de lead sheets com a melodia e os acordes de centenas de músicas. O músico que tem o livro pode tocar uma música que nunca tocou antes: com a melodia e os acordes em mãos, consegue improvisar. Os fake books foram durante décadas ilegais nos Estados Unidos por questões de direito autoral, o que só aumentou seu prestígio clandestino entre músicos.

Fender Rhodes

Um piano elétrico fabricado a partir dos anos 1950, com um som característico de campainha metálica e suave. Tornou-se central no jazz dos anos 1970, especialmente na Fusion, tocado por músicos como Herbie Hancock e Chick Corea.

Field holler

O canto dos trabalhadores nas plantações do sul dos Estados Unidos, um dos ancestrais mais primitivos do blues e, por extensão, do jazz. Gritos livres, sem estrutura harmônica fixa, que serviam tanto como comunicação quanto como expressão emocional.

Flatted fifth (quinta bemolizada, trítono)

O intervalo de seis meios tons, exatamente a metade de uma oitava, que na teoria musical europeia tradicional era chamado de "diabolus in musica" por seu caráter instável e dissonante. O bebop adotou o trítono como uma de suas ferramentas harmônicas favoritas para criar tensão que pede resolução.

Flüguelhorn (fliscorne)

Um instrumento de sopro da família dos metais, parecido com o trompete, mas com tubo mais largo e campana maior, o que lhe dá um som mais encorpado, quente e menos brilhante. No jazz, o flüguelhorn é frequentemente usado em baladas. Miles Davis usou o instrumento em vários momentos de sua carreira.

Free Jazz

Estilo desenvolvido principalmente nos Estados Unidos nos anos 1960, que eliminava as regras mais básicas do jazz até então: a sequência fixa de acordes, o compasso regular e às vezes até a escala. Ornette Coleman batizou o movimento com seu disco de 1960. A recepção foi hostil: Louis Armstrong chamou o novo estilo de "barulho". A história provou que havia mais coisa lá do que a hostilidade inicial deixava ver.

Fusion (Jazz-Rock Fusion)

O estilo que surgiu no final dos anos 1960 ao misturar o jazz com o rock elétrico: guitarras e baixos amplificados, batidas retas em vez do suingue do jazz, e um volume próximo ao do rock. Miles Davis foi o principal catalisador com "Bitches Brew" (1970). Grupos como Weather Report, Mahavishnu Orchestra e Return to Forever desenvolveram linguagens próprias dentro do estilo.

Funky

Adjetivo para descrever um som de jazz com muita influência do blues e do gospel, um balanço visceral e terroso. O Hard Bop dos anos 1950 é frequentemente descrito como "funky": músicas como "The Preacher" de Horace Silver têm esse caráter de balanço físico imediato.



G



Ghost note (nota fantasma)

Uma nota tocada de forma quase inaudível, muito mais suave que as demais, usada para adicionar textura rítmica sem chamar atenção. Na bateria, o baterista pode incluir golpes fantasmas na caixa que mal se ouvem mas que contribuem para o groove.

Glissando

Um deslize entre duas notas, percorrendo todas as alturas intermediárias de forma contínua, sem notas separadas. No jazz, o glissando é muito usado no clarinete, no trombone e no piano, e é um dos recursos expressivos mais característicos da música de Nova Orleans.

Gospel

A música das igrejas negras protestantes americanas, derivada dos spirituals e dos hinos europeus adaptados à tradição musical afro-americana. A estrutura de chamada e resposta, o canto com vibrato intenso, a emoção física na performance: tudo isso vem do gospel. O Hard Bop dos anos 1950 resgatou explicitamente essa conexão.

Groove

A sensação de encaixe rítmico que faz a música "andar", que faz o ouvinte sentir vontade de balançar o corpo. O groove não é uma coisa que se mede facilmente: é uma qualidade de como os músicos se relacionam entre si ritmicamente, especialmente como o baixo e a bateria se encaixam.

Growl

Um efeito no trompete ou no trombone que produz um som rouco, quase como um grunhido, obtido ao fazer uma vocalização na garganta enquanto toca. O trompetista Bubber Miley, da orquestra de Duke Ellington nos anos 1920, era o mestre do growl. É um dos recursos que fazem o instrumento de metal "soar humano".



H



Hammond B-3

O órgão elétrico fabricado pela Hammond, especialmente o modelo B-3, que se tornou um instrumento fundamental no jazz dos anos 1950 e 1960, especialmente no Soul Jazz. Jimmy Smith foi quem mais contribuiu para estabelecer o Hammond B-3 como instrumento de jazz sério. O som do B-3, especialmente quando amplificado pelo alto-falante rotativo Leslie, tem uma presença física que nenhum outro instrumento replica.

Hard Bop

Estilo que surgiu em meados dos anos 1950 como resposta ao Cool Jazz. O Hard Bop voltou ao blues e ao gospel, com melodias mais simples e imediatas que o bebop, andamentos médios mais próximos do ritmo físico, e uma intensidade emocional direta. Art Blakey e os Jazz Messengers, Horace Silver e o quinteto de Clifford Brown e Max Roach são as referências centrais.

Head arrangement (arranjo de cabeça)

Um arranjo criado de cabeça, oralmente, sem partitura, combinado pelos músicos antes ou durante a performance. Nas bandas de Kansas City dos anos 1930, esse era o modo de trabalho habitual, e o resultado era uma música que soava mais espontânea que os arranjos escritos das grandes orquestras.

Honk

Um som cavo, rouco e de impacto produzido no registro grave do saxofone, parecido com o grasnar de um pato. O honk é usado para pontuar uma frase ou para dar ênfase rítmica, como um ponto de exclamação sonoro. É um dos efeitos mais associados ao jazz de blues e ao estilo mais extrovertido do saxofone tenor.

Hot

Adjetivo para o jazz de alta energia, com impulso rítmico intenso e improvisação mais extrovertida. É o oposto do "cool". No início do jazz, "hot" distinguia o jazz com swing genuíno de suas versões mais mecânicas e comerciais.



I



Improvisação coletiva (collective improvisation)

A técnica em que vários músicos improvisam ao mesmo tempo, cada um com sua própria linha melódica, criando uma textura densa e polifônica. É a marca mais característica do jazz de Nova Orleans (ver Dixieland), onde o clarinete, o trombone e o cornetim conversavam simultaneamente sem que nenhum fosse o solista principal. O Free Jazz dos anos 1960 retomou essa ideia de forma ainda mais radical.

Improvisação

O coração do jazz. A criação musical espontânea em tempo real, a partir do conhecimento de harmonia, ritmo e da linguagem do próprio gênero. No jazz, a improvisação não é aleatória: o músico improvisa dentro de um contexto (os changes de uma música, um modo, uma progressão), usando o vocabulário que desenvolveu ao longo de anos de estudo e escuta. O resultado é que cada execução de um mesmo tema é única e irrepetível.



J



Jam session

Uma reunião informal de músicos para improvisar juntos, sem ensaio, sem partitura e geralmente sem plateia pagante. Foi em sessões noturnas no Minton's Playhouse, no Harlem, que nos anos 1940 nasceu o bebop. Músicos de diferentes bandas se encontravam depois dos shows para experimentar ideias que não cabiam no repertório comercial de suas orquestras.

Jazz Latino

Termo amplo para as correntes do jazz que incorporam ritmos e estruturas da música latino-americana e do Caribe: o jazz afro-cubano (com a clave e as congas), a bossa nova (com a batida brasileira do samba) e outros gêneros como a salsa e o mambo.

Jazz modal

Estilo que usa modos musicais (ver Modo) como base para a improvisação, em vez de sequências de acordes que mudam a cada poucos compassos. O exemplo mais famoso é o álbum "Kind of Blue" de Miles Davis (1959), em que cada faixa fica num único modo por um longo tempo. O efeito para o ouvinte é de algo mais aberto, mais meditativo.



K



Kansas City Style

O jazz que se desenvolveu em Kansas City nos anos 1930, caracterizado por andamentos médios e fluidos, muita improvisação sobre formas de blues e arranjos de cabeça. A banda de Count Basie é o exemplo principal: uma seção rítmica leve e líquida, solos longos e uma forma de suingue mais relaxada que o jazz de Nova York.



L



Lead sheet

Uma página de música com a melodia de uma canção, os acordes escritos por cima (em cifras), e às vezes a letra. Não diz como tocar: apenas o quê. É a forma mais básica de notação musical no jazz, o mínimo necessário para que um grupo de músicos que nunca tocou junto possa executar a mesma música.

Legato

Tocar as notas de forma conectada, sem interrupção audível entre elas, como se deslizasse de uma para outra. No jazz, o legato é muito usado em ballads e em frases líricas longas. O oposto é o staccato, em que cada nota é curta e separada.

Lick

Uma frase melódica curta e característica, repetida (às vezes obsessivamente) por um músico. É o tijolo da improvisação: músicos acumulam um vocabulário de licks ao longo dos anos e os adaptam em diferentes contextos.

Lindy Hop

A dança de salão que nasceu no Savoy Ballroom do Harlem nos anos 1920 e dominou a Era do Swing. Batizada em homenagem ao aviador Charles Lindbergh, foi depois chamada de jitterbug e se espalhou pelo país junto com a popularidade das big bands.



M



Mainstream

A "corrente principal" do jazz, o estilo que mantém compromisso com as raízes e tradições do gênero sem ser nem tradicionalista radical nem experimentalista. Geralmente engloba o jazz que ficou entre os anos 1950 e o presente, que usa swing, improvisa sobre changes e mantém o equilíbrio entre estrutura e liberdade.

Medley

A execução em sequência de trechos de músicas diferentes, mantendo uma coesão de andamento ou estilo. Numa apresentação ao vivo de jazz, o músico que faz um medley de standards passa de um tema para outro de forma fluida.

Modo

Na teoria musical, um modo é um tipo de escala construída a partir de uma sequência específica de tons e semitons. Os modos mais conhecidos têm nomes gregos: dórico, frígio, lídio, mixolídio. No jazz modal, o improvisador usa um modo como paleta de notas para criar seu solo, sem precisar mudar o conjunto de notas a cada compasso.

Multi-tracking (multipistas)

A técnica de gravação em que diferentes instrumentos são registrados em faixas separadas, que depois são sobrepostas e misturadas. Teo Macero, produtor de Miles Davis, levou essa técnica ao extremo em "Bitches Brew" (1970), cortando e colando horas de improvisação gravada.

Mute (surdina)

Um dispositivo inserido ou colocado sobre o sino de um instrumento de metal para alterar o timbre. Existem vários tipos: a surdina "harmon" (ou wah-wah) dá ao trompete um som nasal e íntimo, muito associado a Miles Davis nos anos 1950; a "cup mute" produz um som mais aveludado.



N



Naipe (section)

O grupo de instrumentos da mesma família dentro de uma big band ou orquestra de jazz. Os três naipes clássicos são: metais (trompetes e trombones), palhetas (saxofones e clarinetes) e seção rítmica (piano, contrabaixo, bateria e violão). O diálogo entre os naipes é a estrutura básica do arranjo de big band.

New Orleans Style

Ver Dixieland. Os dois termos descrevem essencialmente o mesmo estilo, mas "New Orleans Style" enfatiza a origem geográfica e histórica, enquanto "Dixieland" tem uma conotação mais ligada à versão comercializada por bandas brancas a partir dos anos 1910.

New thing

Denominação usada nos anos 1960 para o Free Jazz antes que este termo se consolidasse. "A coisa nova" era a descrição mais honesta possível para algo que ainda não tinha nome.



O



Ostinato

Uma frase musical curta repetida de forma contínua, geralmente no baixo ou na percussão. O ostinato cria uma base hipnótica sobre a qual os solistas improvisam. No jazz modal e no jazz latino, é um recurso estrutural central.



P



Pedal tone

Uma nota sustentada (ou repetida) no baixo por vários compassos enquanto as harmonias acima dela mudam. O pedal cria uma tensão dramática: os acordes que normalmente resolveriam não resolvem porque o baixo não se move.

Pizzicato

Técnica em que o músico de cordas pinça as cordas com os dedos em vez de usar o arco. No jazz, o contrabaixo é tocado quase sempre em pizzicato: é daí que vem o som característico de "ploc" do baixo acústico de jazz.

Progressão harmônica

A sequência de acordes que sustenta uma música. No jazz, conhecer a progressão harmônica de um standard é fundamental: é ela que define os "changes" sobre os quais o improvisador vai criar sua melodia. Progressões como o ii-V-I são tão comuns no jazz que qualquer músico do gênero as reconhece instantaneamente.



R



Ragtime

Tipo de música surgida no fim do século XIX no Meio-Oeste americano, uma versão negra e muito sincopada da música pianística europeia de salão. Scott Joplin (1868-1917) é seu compositor mais famoso. O ragtime é uma das duas raízes musicais mais diretas do jazz: foi dele que o jazz herdou a síncope.

Rhythm section (seção rítmica)

O conjunto de instrumentos responsável por sustentar o tempo, a harmonia e o groove. A formação clássica é piano, contrabaixo e bateria, às vezes com violão. A seção rítmica é a "cozinha" do grupo: o que acontece lá sustenta tudo o que os solistas fazem na frente.

Riff

Um motivo rítmico-melódico curto, geralmente de dois ou quatro compassos, que é repetido por uma seção da orquestra. O riff é uma das ferramentas mais eficazes para criar intensidade: quando uma big band toda começa a repetir um riff coletivo por trás de um solo, o efeito é de uma pressão crescente. "One O'Clock Jump" de Count Basie é construído quase que inteiramente sobre riffs.

Ring shout

Uma dança cantada circular praticada por congregações negras, de formato responsorial, que é considerada uma das influências mais antigas na música afro-americana. No ring shout, os participantes cantam, batem palmas e se movem em círculo.



S



Sample (amostra)

Um trecho de uma gravação existente utilizado como material para uma nova composição. No Acid Jazz e no hip-hop dos anos 1990, o sample era a matéria-prima central: o produtor identificava um groove ou uma melodia num disco antigo e o usava em loop como base rítmica de uma faixa nova.

Scat

A improvisação vocal em que o cantor substitui as palavras da letra por sílabas sem sentido, usando a voz como instrumento. Ella Fitzgerald era a mestre absoluta do scat. Louis Armstrong é apontado como um dos primeiros a usar o recurso em gravações comerciais, nos anos 1920.

Segundo cortejo (second line)

A multidão que acompanha as bandas nos funerais e desfiles de rua de Nova Orleans. Enquanto a banda toca, o segundo cortejo segue atrás, dançando, pulando e respondendo à música com o próprio corpo. É um dos exemplos mais vivos de como o jazz nasce da interação entre músicos e comunidade.

Sideman

O músico que integra uma banda como membro, não como líder. Miles Davis foi sideman na banda de Charlie Parker antes de liderar suas próprias formações. O termo não tem conotação depreciativa.

Síncope (syncopation)

O deslocamento do acento rítmico para os tempos fracos do compasso. A síncope é um dos elementos definidores do jazz: em vez de acentuar os tempos 1, 2, 3 e 4 de um compasso, a música jazzística acentua os momentos intermediários. O efeito para o ouvinte é de uma pulsação que parece sempre um pouco à frente ou atrás de onde o corpo espera.

Slow drag

Uma dança lenta e arrastada, comum nos salões de Nova Orleans no fim do século XIX, que contribuiu para o desenvolvimento do blues e do jazz. O "drag" no nome refere-se literalmente ao arrastar dos pés, um estilo de dançar diferente das danças europeias mais formais da época.

Soul Jazz

Substilo do Hard Bop dos anos 1960, com ênfase ainda maior no groove físico, no blues e no gospel. O órgão Hammond B-3 era o instrumento central do Soul Jazz, e músicos como Jimmy Smith e Jimmy McGriff construíram carreiras inteiras dentro do estilo.

Spiritual

Música vocal coletiva criada pelos escravizados americanos no século XIX, de fundo religioso. Os spirituals foram a base cultural e musical que, ao se transformar e se secularizar, deu origem ao blues e ao jazz.

Standard

Uma composição que se tornou parte do repertório comum do jazz, conhecida e tocada por músicos de diferentes épocas e estilos. Pode ser uma canção popular americana dos anos 1930 ou 1940 (como "Autumn Leaves" ou "All the Things You Are") ou uma composição de um jazzista que entrou para o cânone (como "'Round Midnight" de Thelonious Monk). Conhecer os standards é como conhecer o idioma: é o vocabulário compartilhado que permite que dois músicos que nunca se viram possam tocar juntos.

Stop time

Uma técnica rítmica em que a banda toca apenas o primeiro tempo de cada dois compassos, deixando o segundo completamente em silêncio, enquanto o solista continua improvisando. O efeito é o de uma música que "respira fundo" a cada compasso, criando tensão e espaçosidade ao mesmo tempo.

Stomps

Termo usado pelos primeiros historiadores do jazz, especialmente por Jelly Roll Morton, para descrever peças instrumentais com ritmo muito marcado e de caráter festivo. Músicas como "King Porter Stomp" de Morton estão na raiz da tradição.

Stride piano

Estilo de piano dos anos 1920 e 1930, desenvolvido especialmente no Harlem. A mão esquerda alterna entre uma nota grave no primeiro e terceiro tempo e um acorde aberto no segundo e quarto, produzindo um movimento de "passos". A mão direita improvisa por cima. James P. Johnson e Fats Waller são os nomes mais associados ao estilo.

Swing (suingue)

Em letras minúsculas, o balanço rítmico específico do jazz, aquela qualidade de "giro" que faz a música parecer que está sempre em movimento. Louis Armstrong disse que, se você precisa perguntar o que é swing, você nunca vai saber. Com letra maiúscula, "Swing" também designa o estilo da Era das Big Bands, dos anos 1930 e 1940.



T



Tailgate style

O estilo típico dos trombonistas de Nova Orleans, que nas bandas de rua eram posicionados na traseira das carroças, de costas para fora, para ter espaço de mover a vara do trombone. O estilo é caracterizado por frases largas e glissandos dramáticos.

Time (tempo)

No jazz, "time" se refere à capacidade de manter um pulso estável e coerente, internamente, sem depender de um metrônomo externo. Ter "good time" é uma das qualidades mais admiradas num músico de jazz: significa que você pode tocar frases complexas e ainda assim "pousar" exatamente no tempo certo quando a banda toda se encontra de volta.

Tritono

Ver "Flatted fifth".

Turnaround

Uma progressão de acordes de dois ou quatro compassos usada no final de uma seção de uma música para "virar" de volta para o começo da próxima. O turnaround cria uma sensação de movimento circular: a música sempre volta ao ponto de partida, e os músicos improvisam sobre essa curva.



V



Vibrato

Uma variação rápida e regular na altura de uma nota, criando uma oscilação que "aquece" o som. No jazz vocal e instrumental, o vibrato é uma das ferramentas expressivas mais importantes. Cada músico tem seu próprio vibrato característico, quase como uma impressão digital sonora.

Voicing

A forma específica como as notas de um acorde são distribuídas entre as diferentes oitavas. O mesmo acorde pode ser voicé de dezenas de maneiras diferentes, criando texturas e efeitos completamente distintos. Você pode reconhecer Bill Evans ou McCoy Tyner apenas pelo voicing de um único acorde.



W



Walking bass (baixo caminhante)

O estilo de tocar o contrabaixo em que o instrumento executa uma nota por tempo, percorrendo as notas do acorde de forma fluida, "caminhando" de um acorde para o próximo. O walking bass é o padrão mais comum no jazz, e sua forma de mover-se cria tanto o ritmo quanto a harmonia do grupo.

Washboard

Uma tábua de lavar roupa de zinco ondulado, percutida com dedais pelo instrumentista, usada nas primeiras formações de jazz e blues como instrumento de percussão. É um dos exemplos de como o jazz surgiu de músicos que usavam qualquer objeto sonoro disponível antes de ter acesso a instrumentos convencionais.

Woodshedding

Praticar extensivamente e de forma isolada, em "particular", como se o músico fosse para o "galpão de lenha" da casa onde ninguém pode ouvi-lo. Quando Charlie Parker voltou de Kansas City humilhado numa jam session e passou meses estudando os solos de Lester Young, ele estava woodshedding. É a fase de preparação intensa que antecede o músico pronto para tocar em público.