A Jornada do Jazz
01
DIXIELAND
(1897-1928)
02
SWING
(1935-1945)
03
BEBOP
(1941-1953)
04
COOL JAZZ
(1949-1958)
05
HARD BOP
(1954-1959)
06
FREE JAZZ
(1959-1968)
07
BOSSA NOVA
(1962-1965)
08
FUSION
(1969-1982)
09
contemporâneo
(1986-hoje)
05 - Hard Bop: o jazz que voltou para casa
Quando os herdeiros do Bebop decidiram trazer de volta o suor, a igreja e o blues

O pianista Horace Silver (segundo da direita p/esquerda) recebe prêmio da Gravadora Blue Note
No começo de 1955, dentro dos estúdios da Blue Note em Nova York, o produtor Alfred Lion ouviu a gravação de "The Preacher", do pianista Horace Silver, e quase decidiu não lançar o disco. Achava aquilo piegas demais, um blues arrastado que soava mais à igreja pentecostal do que ao jazz moderno. As vendas provaram Lion redondamente errado. O disco estourou, e o próprio produtor viraria, em poucos meses, um dos maiores entusiastas daquele som que ele quase engavetou. A ironia é reveladora. Depois de anos de jazz cada vez mais cerebral, primeiro com o Bebop e depois com a friagem elegante do Cool, um grupo de músicos decidiu que estava na hora de o jazz suar de novo.
■ De onde veio
A reação começou como resposta direta ao próprio Cool Jazz. Para muitos músicos negros do Leste dos Estados Unidos, aquele som suave e orquestrado, tocado majoritariamente por brancos na Costa Oeste, tinha se afastado demais das raízes de blues e gospel que sustentavam o jazz desde sempre. A resposta veio de dentro da própria tradição do Bebop, não como ruptura, mas como continuação mais quente e mais direta dela.
O ponto de partida costuma ser fixado em 1954, quando o baterista Max Roach, recém-chegado à Califórnia, foi convidado pelo empresário Gene Norman a montar sua própria banda para se apresentar no California Club.
Clifford Brown e Max Roach
Roach chamou para co-liderar o grupo um jovem trompetista chamado Clifford Brown, cuja habilidade impressionava até os veteranos do Bebop. As fontes discordam sobre um detalhe pequeno, mas simbólico, da formação musical de Brown. Para o escritor Ted Gioia, ele começou aulas de trompete aos doze anos, depois de tocar corneta na infância. Já para James Lincoln Collier, foi o próprio pai quem lhe deu o instrumento apenas aos quinze. A discrepância não muda o essencial. Brown chegou tarde ao trompete e, ainda assim, em poucos anos já tocava ao lado de gente como Fats Navarro e Dizzy Gillespie, o que só reforça o quanto seu talento parecia natural demais para ser explicado por qualquer cronologia exata.
■ Como soa
O Bebop tinha levado a harmonia e o virtuosismo ao limite. O Hard Bop trouxe de volta a simplicidade que fala direto ao corpo. As melodias voltam a se apoiar em frases de blues e em cadências que lembram o "amém" cantado nas igrejas negras, aquele acorde final que soa como uma resposta, um ponto final afirmativo depois de uma frase suspensa. Os pianistas, como Horace Silver, trocam a avalanche de notas de Bud Powell por frases mais enxutas na mão direita, apoiadas num acompanhamento simples e repetitivo na mão esquerda, quase como o baixo constante de um piano de boogie-woogie. Na bateria, Art Blakey desloca ainda mais a energia da banda. Mantém o tempo no prato de condução, mas não se contenta em apenas marcar o compasso e detona acentos explosivos e imprevisíveis no bumbo e na caixa, conhecidos como "bombs", que empurram o solista para a frente como se cada golpe fosse uma pergunta gritada em pleno meio de um sermão. O andamento típico também muda. Em vez da velocidade vertiginosa do Bebop, o Hard Bop prefere andamentos médios, mais dançantes, mais próximos do balanço original do Swing e do rhythm and blues que tocava no rádio da época.
Horace Silver
■ Quem ouvir
Art Blakey
Sonny Rollins
O Clifford Brown & Max Roach Quintet gravou, entre 1954 e 1956, um punhado de sessões que se tornariam referência obrigatória do estilo. "Joy Spring" e "Daahoud", ambas de autoria de Brown, mostravam um trompetista de controle impecável e som "gordo", em parte herdado de seu ídolo Fats Navarro. Em junho de 1956, depois de um show informal numa loja de instrumentos na Filadélfia, Brown seguia de carro para Chicago ao lado do pianista Richie Powell e da esposa deste quando o veículo derrapou numa pista molhada da Pennsylvania Turnpike e caiu de um barranco. Os três morreram na hora. Brown tinha vinte e cinco anos e a reputação, entre os próprios músicos, de ser um dos raros nomes do jazz moderno livre dos vícios que destruíram tantos de seus contemporâneos.
Em Pittsburgh, Art Blakey tinha uma história bem mais dura por trás da baqueta. Trabalhou nas siderúrgicas ainda adolescente, levou uma surra da polícia que lhe deixou uma placa de metal na cabeça (o mesmo ferimento que, ironicamente, o livrou do serviço militar) e só depois de anos de estrada montou, em 1955, os primeiros Jazz Messengers ao lado de Silver, Kenny Dorham e Hank Mobley. O disco de 1958, "Moanin'", com a música-título do pianista Bobby Timmons evocando abertamente o chamado e resposta das igrejas negras, se tornaria um dos retratos mais completos do estilo. O pianista descreveria décadas depois o efeito de tocar sob a liderança de Blakey: "Ele é um líder que forma outros líderes. Poucos homens são líderes de verdade, isso tem a ver com mais do que música."
Horace Silver, por sua vez, seguiu caminho próprio depois de romper com Blakey em 1956. Filho de imigrante cabo-verdiano, por anos resistiu à sugestão do próprio pai de misturar a música folclórica de Cabo Verde ao jazz, achando a ideia "cafona demais". Anos depois, mudou de ideia, e álbuns como "Song for My Father" se tornariam alguns dos maiores sucessos de vendas da história do selo Blue Note, provando que o Hard Bop podia ser, ao mesmo tempo, cru e sofisticado.
Foi justamente na banda de Blakey que o trompetista Lee Morgan, ainda adolescente, encontrou seu lugar depois de uma passagem pela orquestra de Dizzy Gillespie. Morgan tinha um fraseado mais cortante e emocional que o de Brown, sua principal influência, e em 1963 emplacaria com "The Sidewinder" um dos raros sucessos de jazz a entrar nas paradas pop dos Estados Unidos. Nove anos depois, seria morto a tiros por uma namorada ciumenta num clube de Nova York, aos trinta e três anos, repetindo, com uma dose ainda maior de violência, o mesmo destino precoce de Clifford Brown.
Depois da morte de Brown, coube ao saxofonista Sonny Rollins, que já tocava no quinteto desde a saída de Harold Land, manter viva a chama do grupo. Em 1956, gravou "St. Thomas" para o álbum "Saxophone Colossus", um calipso alegre que provava que o Hard Bop também podia sorrir, apesar de suas tragédias pessoais.
Lee Morgan
Hank Mobley
■ Para onde foi
Por volta de 1960, o próprio Hard Bop começava a mostrar sinais de esgotamento. O crítico James Lincoln Collier considerou que o estilo "tinha chegado a um beco sem saída". Do lado oposto do espectro ideológico, Amiri Baraka chegou a uma conclusão parecida e o descreveu como uma "autocelebração do clichê". Dois críticos que discordavam sobre quase tudo chegaram ao mesmo diagnóstico, sinal de que algo realmente tinha enrijecido. Mas ambos exageraram a mão. Blakey e Silver seguiriam liderando bandas vitais durante toda a década seguinte, e o próprio selo Blue Note, base do movimento, logo começaria a financiar experimentos que explodiriam de vez as fórmulas do gênero. Enquanto o Hard Bop se acomodava em seus próprios clichês, outros músicos, cansados até da ideia de que o jazz precisasse seguir qualquer fórmula fixa, estavam prestes a abandonar de vez harmonia, forma e métrica como o jazz sempre as conhecera.
■ Para ouvir
Clifford Brown & Max Roach Quintet, "Joy Spring" (1954): A melodia mais duradoura do quinteto que batizou o estilo.
Miles Davis Sextet, "Walkin'" (1954): O blues que trouxe de volta o som "funky" da igreja para o jazz moderno.
Art Blakey & The Jazz Messengers, "Moanin'" (1958): O hino de call and response de Bobby Timmons.
Horace Silver Quintet, "The Preacher" (1955): O disco que Alfred Lion quase recusou lançar.
Lee Morgan, "The Sidewinder" (1963): O raro hit de jazz nas paradas pop americanas.
Sonny Rollins, "St. Thomas" (1956): O calipso que provou que o Hard Bop também sabia sorrir.
Fontes: Ted Gioia, The History of Jazz; Ted Gioia, Como ouvir Jazz; Eric Hobsbawm, A História Social do Jazz; James Lincoln Collier, The Making of Jazz; Gunther Schuller, Early Jazz; Gunther Schuller, El Jazz sus raices y su desarrollo; pesquisa adicional na web para checagem cruzada e verificação dos links do Spotify.






