explore o jazz panorama

A Jornada do Jazz

01

DIXIELAND

(1897-1928)

02

SWING

(1935-1945)

03

BEBOP

(1941-1953)

04

COOL JAZZ

(1949-1958)

05

HARD BOP

(1954-1959)

06

FREE JAZZ

(1959-1968)

07

BOSSA NOVA

(1962-1965)

08

FUSION

(1969-1982)

09

contemporâneo

(1986-hoje)

09 - Jazz Contemporâneo: dos anos 1980 até hoje

Como a pergunta "o que fazer com o legado do jazz depois da fusion" gerou dois movimentos opostos e um encontro inesperado décadas mais tarde

Robert Glasper traz para junto do jazz nomes de outros gêneros da música contemporânea

Em Londres, em 1992, o produtor Geoff Wilkinson tinha um problema incomum para resolver. Ele queria construir uma faixa de hip-hop inteira em cima de um disco antigo do selo americano Blue Note, mas, em vez de simplesmente furtar o sample, como fazia todo mundo no circuito, decidiu pedir licença. Para sua surpresa, Bruce Lundvall, presidente da própria Blue Note, topou. Assim nasceu "Cantaloop (Flip Fantasia)", construída sobre "Cantaloupe Island", gravação de 1964 de Herbie Hancock, com um baixo repetido em loop e uma batida de hip-hop por cima da melodia original. Essa faixa abriu o disco "Hand On the Torch", do grupo Us3, que viraria em 1993 o primeiro álbum da história do selo Blue Note a vender um milhão de cópias nos Estados Unidos. Um selo fundado em 1939 para gravar jazz tradicional, endossando oficialmente o hip-hop como forma legítima de manter seu próprio catálogo vivo.

■ De onde veio

O fim das grandes bandas fundadoras da fusion, contado na página anterior desta série, não significou o fim do próprio estilo. Chick Corea manteria sua Elektric Band na ativa até poucos anos antes de morrer, em 2021, e guitarristas como Al Di Meola seguiriam explorando aquela mesma linguagem elétrica até hoje. O que os anos 1980 perderam foi uma vanguarda unificadora, um movimento capaz de arrastar o jazz inteiro atrás de si como a fusion tinha feito na década anterior. Sem isso, o gênero se dividiu em respostas quase opostas para a mesma pergunta: o que fazer daqui para a frente? De um lado, um grupo de músicos jovens decidiu que a saída era olhar para trás. Em 1982, um trompetista de Nova Orleans chamado Wynton Marsalis, então com vinte anos, lançou seu primeiro disco como líder, tocando totalmente acústico, ao lado de dois veteranos do próprio quinteto de Miles Davis dos anos 1960, Herbie Hancock e Tony Williams, ambos peças centrais da fusion que a página anterior descreveu (Hancock com o funk de "Head Hunters", Williams à frente da banda elétrica Lifetime). Ver os dois voltarem ao acústico ao lado de um garoto reforçou a mensagem. A tradição não estava morta, só tinha sido momentaneamente abafada pelo volume dos amplificadores.

Wynton Marsalis

Gilles Peterson

Do outro lado do Atlântico, em Londres, uma cena completamente diferente buscava a mesma coisa por um caminho oposto. DJs que discotecavam nas noites de sábado em clubes como o Dingwalls, em Camden, descobriram que os discos de jazz que seus pais ouviam tinham grooves perfeitos para dançar. Em 1987, o mesmo ano em que Wynton Marsalis ajudava a lançar em Nova York a série de concertos de verão que, poucos anos depois, se tornaria o departamento oficial de jazz do Lincoln Center, o DJ Gilles Peterson e o produtor Eddie Piller abriam em Londres a gravadora Acid Jazz, batizando sem querer todo um movimento que misturava vinis antigos de jazz e soul a batidas eletrônicas de dança. Duas respostas para a mesma crise, nascidas no mesmo ano, em cidades diferentes, e que mal se falavam entre si.

■ Como soa

O lado neoclássico busca o virtuosismo acústico do hard bop e do swing, mas tocado com uma limpeza técnica que os próprios originais dos anos 1950 nem sempre tinham, uma geração formada em conservatórios recuperando um vocabulário que quase se perdeu. O lado da amostragem trabalha de um jeito completamente diferente: um produtor pega um trecho de um disco antigo (o "sample"), repete esse trecho em ciclo (o "loop") até virar a base rítmica de uma nova canção, e por cima entra o rap ou um instrumento tocado ao vivo. É um jeito de compor que não parte de uma pauta em branco, mas de um arquivo sonoro já existente, recortado e recombinado até virar outra coisa. O efeito no ouvido é oposto ao do primeiro: em vez da limpeza acústica, uma textura granulada, cheia de chiados de vinil e batidas secas, que soa deliberadamente suja e ao mesmo tempo hipnótica.

■ Quem ouvir

A Tribe Called Quest

Kamasi Washington

Wynton Marsalis se tornaria a face mais visível e mais debatida desse retorno ao acústico. Como diretor artístico do departamento de jazz do Lincoln Center, levou adiante um projeto de preservar e ensinar o repertório clássico do gênero por quase quatro décadas. Seus críticos o acusavam de tratar o jazz como museu, fechado a qualquer inovação posterior a 1965. Seus defensores respondiam que, sem essa reafirmação disciplinada da tradição, uma geração inteira de jovens músicos correria o risco de crescer sem aprender a tocar sobre uma sequência de acordes de verdade. Os dois lados tinham razão em parte, o que talvez explique por que o debate nunca se resolveu de vez.

Do outro lado do oceano, um ano antes de Wilkinson montar "Cantaloop", o grupo nova-iorquino A Tribe Called Quest já vinha garimpando o mesmo tipo de material. Em "Excursions", faixa de abertura do álbum "The Low End Theory", de 1991, a batida nasce de um sample de "A Chant for Bu", gravação de Art Blakey and the Jazz Messengers, com o rapper Q-Tip comparando explicitamente o hip-hop ao bebop. O disco venderia mais de um milhão de cópias e seria eleito anos depois pela revista Time, um dos cem melhores álbuns de todos os tempos.

Na maioria desses discos, o jazz entrava como matéria-prima sem voz própria, um solo antigo recortado e posto a serviço da intenção de outro artista, sem qualquer diálogo real com os músicos originais. Foi Guru, rapper do grupo Gang Starr, quem resolveu inverter essa lógica. Em vez de samplear veteranos do jazz, ele os convidou para gravar material inédito. Seu disco "Jazzmatazz, Vol. 1", de 1993, reuniu em estúdio nomes como o trompetista Donald Byrd, o vibrafonista Roy Ayers e o saxofonista Branford Marsalis (irmão do próprio Wynton), tocando ao vivo sobre bases de hip-hop. Diferente de Us3, mencionado na abertura desta página, aqui não havia amostragem alguma. Era colaboração de verdade, entre gerações que até então só se cruzavam através de um sample recortado.

Duas décadas depois, o pianista Robert Glasper levaria essa aproximação um passo além. Seu disco "Black Radio", de 2012, colocava seu quarteto de jazz elétrico ao lado de cantores e rappers como Erykah Badu, Bilal e Lupe Fiasco, regravando desde Nirvana até David Bowie com o vocabulário harmônico do jazz por trás. O disco venceu o Grammy de Melhor Álbum de R&B em 2013, com um jazzista levando a estatueta numa categoria que não era nem a sua.

O fechamento mais recente desse círculo veio do saxofonista Kamasi Washington. Seu disco de estreia, "The Epic", de 2015, com quase três horas de música distribuídas em três discos, cheias de orquestra de cordas e coro, chegou ao mundo poucas semanas depois de o próprio Washington aparecer, com seu sax tenor, em "To Pimp a Butterfly", do rapper Kendrick Lamar, um dos álbuns mais aclamados da década. O caminho tinha se completado. O mesmo instrumento que décadas antes era apenas recortado de um disco de vinil sem crédito agora assinava, ao vivo, um dos discos mais importantes do hip-hop contemporâneo.

Snarky Puppy

Incognito

■ Para onde foi

Essa história segue longe de estar terminada. A Incognito, banda britânica liderada por Jean-Paul "Bluey" Maunick, existia desde 1979 mas só encontrou seu público mais amplo quando entrou em 1990 para o catálogo da Talkin' Loud, o segundo selo de Gilles Peterson, fundado depois que ele deixou a Acid Jazz. A Incognito segue bem sucedida até hoje. Do lado instrumental, o coletivo americano Snarky Puppy, fundado pelo baixista Michael League em 2004, já venceu cinco Grammys misturando jazz, funk e música do mundo num formato quase de banda de rock, com raras intervenções de vocais. A pianista japonesa Hiromi Uehara mistura jazz, rock progressivo e música clássica, tendo até gravado um dueto com Chick Corea. A baixista australiana Tal Wilkenfeld, ainda com 20 anos, já dividia palco com o guitarrista Jeff Beck e, depois, com o mesmo Corea. E em 2011, a contrabaixista e cantora Esperanza Spalding surpreendeu a indústria fonográfica ao vencer o Grammy de Artista Revelação, sendo a primeira jazzista a levar essa categoria, driblando favoritos do pop.

Hiromi Uehara

Tal Wilkenfeld

Esperanza Spalding

Os dois movimentos que abriram esta página nunca se fundiram de vez, e talvez nunca precisem. O jazz de hoje segue vivendo nessa tensão entre olhar para trás, prezando um repertório que corre o risco real de se perder, e olhar para os lados, absorvendo o que quer que a geração mais jovem esteja ouvindo, exatamente como fez em cada uma das oito fases anteriores desta série. Há uma coincidência que fecha bem essa história. Foi em 1987, o mesmo ano em que Wynton Marsalis ajudava a lançar aquela série de concertos que viraria o Jazz at Lincoln Center e Gilles Peterson abria sua gravadora em Londres, que uma emissora educativa de Alagoas colocou no ar, pela primeira vez, um programa semanal dedicado a levar o melhor do jazz a quem nunca tinha ouvido falar do gênero. Do Dixieland ao hip-hop, a pergunta nunca mudou: o que fazer com essa música tão rica, e como fazer alguém que nunca ouviu falar dela se apaixonar também. O Jazz Panorama segue tentando responder isso, uma edição de cada vez.

■ Para ouvir

Us3, "Cantaloop (Flip Fantasia)" (1993): A faixa que abriu esta página, sampleando Herbie Hancock com a bênção oficial da Blue Note

Wynton Marsalis, "Father Time" (1982): A faixa de abertura do disco de estreia do rosto mais visível do retorno ao acústico.

A Tribe Called Quest, "Excursions" (The Low End Theory, 1991): O bebop dos pais virando a batida dos filhos.

Guru com Donald Byrd e Roy Ayers, "Loungin'" (Jazzmatazz, Vol. 1, 1993): A resposta colaborativa ao simples sample.

Robert Glasper Experiment (com Lalah Hathaway), "Cherish the Day" (Black Radio, 2012): O jazz elétrico premiado numa categoria de R&B.

Kamasi Washington, "Change of the Guard" (The Epic, 2015): A faixa que dá nome ao próprio gesto de virada de geração.

Fontes: Ted Gioia, The History of Jazz;  Julie Coryell e Laura Friedman, Jazz-Rock Fusion: The People, The Music;  pesquisa adicional na web para checagem cruzada de datas, formações e verificação dos links do Spotify.