A Jornada do Jazz
01
DIXIELAND
(1897-1928)
02
SWING
(1935-1945)
03
BEBOP
(1941-1953)
04
COOL JAZZ
(1949-1958)
05
HARD BOP
(1954-1959)
06
FREE JAZZ
(1959-1968)
07
BOSSA NOVA
(1962-1965)
08
FUSION
(1969-1982)
09
contemporâneo
(1986-hoje)
08 - Fusion: o jazz liga os amplificadores
Como uma noite abrindo para o Grateful Dead selou a união, nem sempre fácil, entre o jazz e o rock

Miles Davis lidera seu sexteto elétrico no festival Filmore East, em Nova York, em junho de 1970
Na noite de 9 de abril de 1970, o Fillmore West, em São Francisco, estava lotado de um público jovem, ali para ver o Grateful Dead. Quem abriu a noite, porém, foi Miles Davis, à frente de um sexteto elétrico formado por Chick Corea no piano Fender Rhodes, Dave Holland no baixo, Steve Grossman no sax soprano, Jack DeJohnette na bateria e Airto Moreira na percussão. O promotor Bill Graham tinha acabado de fazer uma de suas apostas mais ousadas, colocar o trompetista mais respeitado do jazz para tocar antes de uma banda de rock psicodélico, numa temporada de quatro noites seguidas. No começo, quase ninguém prestava atenção. Davis contaria depois, em sua autobiografia, que o salão "estava cheio daquela gente branca, meio doidona, superligada", e que, "quando começamos a tocar, as pessoas ficavam andando de um lado para outro, conversando". Bastaram poucos minutos de material de "Bitches Brew", lançado dez dias antes, para virar o jogo. Aquilo, nas palavras do próprio Davis, "acabou detonando todo mundo". Do outro lado do palco, o baixista do Grateful Dead, Phil Lesh, ficou pasmo: "Com aquela banda, o Miles literalmente inventou a fusion. De certa forma era parecido com o que a gente tentava fazer nas nossas jams livres, só que muito mais denso de ideias." Jerry Garcia, guitarrista e líder do próprio Grateful Dead, fã de jazz de longa data, foi visitar Davis nos bastidores só para trocar ideia sobre música. Naquelas quatro noites de abril, o jazz e o rock deixaram de ser vizinhos educados que se cumprimentavam de longe.
■ De onde veio
No fim dos anos 1960, o jazz vivia um encolhimento real. Clubes fechavam pelo país inteiro, as gravadoras cortavam contratos e a plateia jovem, a mesma que enchia Woodstock, tinha os ouvidos tomados por Jimi Hendrix e Sly and the Family Stone, não por bebop ou hard bop. Miles Davis, sempre atento ao que vinha a seguir, ouvia esses discos com fascínio e começava a se incomodar com a plateia cada vez mais grisalha de seus próprios shows. O primeiro gesto na nova direção foi discreto. "In a Silent Way", gravado em fevereiro de 1969, trocava o piano acústico por teclados elétricos e mergulhava num clima quase flutuante, sem abrir mão da melodia. Meses depois, entre 19 e 21 de agosto de 1969, Davis reuniu um elenco enorme de músicos para as sessões de "Bitches Brew", lançado em março de 1970: Wayne Shorter, Joe Zawinul, John McLaughlin e três nomes que, meses mais tarde, estariam ao lado de Davis naquela noite no Fillmore West, Chick Corea, Dave Holland e Jack DeJohnette. O produtor Teo Macero cortou e colou horas de improviso gravado em estúdio até montar um quebra-cabeça de faixas que nenhuma banda jamais tinha tocado daquele jeito do início ao fim, composição feita na sala de edição, não no palco.
Cartaz do Filmore Festival West
Gary Burton
Vale corrigir também aqui mais um mito recorrente. Miles Davis não inventou sozinho a fusão entre jazz e rock. O vibrafonista Gary Burton e o guitarrista Larry Coryell já misturavam as duas linguagens desde 1967, o grupo britânico Soft Machine seguia caminho parecido pela mesma época, e o baterista Billy Cobham sempre fez questão de lembrar que sua banda Dreams, com os irmãos Randy Brecker no trompete e Michael Brecker no sax tenor (que se tornariam dois dos instrumentistas mais requisitados da fusion na década seguinte), tocava jazz-rock em 1969, "à frente tanto de Davis quanto do Weather Report". O historiador James Lincoln Collier vai além. Argumenta que, ao longo de toda a carreira, Davis foi menos um inventor do que um divulgador de ideias alheias (o bebop pertencia a Parker e Gillespie, o cool à banda de Claude Thornhill e a John Lewis, o jazz modal ao teórico e compositor George Russell), e que o próprio jazz-rock "já existia antes de Bitches Brew ser gravado". A disputa por quem chegou primeiro nunca vai se resolver de vez. O que ninguém discute é que Davis, com sua fama e a máquina promocional da Columbia, foi quem levou a fusão a um público que os outros jamais alcançariam sozinhos.
■ Como soa
A primeira coisa que salta aos ouvidos é o ritmo. No lugar do balanço triplo do swing e do bebop, a fusion assume a batida reta e pesada do rock, quase sempre repetida em loop por minutos a fio (o "groove", um padrão curto que a banda mantém fixo enquanto os solos acontecem por cima, em vez de percorrer uma sequência de acordes que muda a cada compasso). Some a isso a textura elétrica: o piano Fender Rhodes, de timbre metálico e sino, o efeito wah-wah no trompete ou na guitarra, que faz o instrumento soar quase como uma voz gemendo, e o volume alto dos amplificadores de rock, que dá ao som um peso físico que o jazz acústico nunca teve. O improviso muda de natureza. Em vez de navegar por trocas de harmonia complexas, como no bebop, o solista trabalha em cima de um clima e de uma textura que se repetem, então o efeito é mais hipnótico do que intrincado. E há a montagem em estúdio como ferramenta de composição, herdada de Teo Macero: cortes bruscos, repetições e colagens que soam menos como um show ao vivo e mais como um mosaico sonoro.
■Quem ouvir
Return to Forever: Stanley Clarke, Chick Corea, Al DiMeola e Lenny White
Herbie Hancock
Ainda em 1970, em Nova York, o tecladista austríaco Joe Zawinul (que tinha tocado com Cannonball Adderley) e o saxofonista Wayne Shorter (veterano do próprio quinteto de Davis) fundaram o Weather Report, com o baixista tcheco Miroslav Vitouš como o terceiro nome do projeto original. Os três nunca chegaram a um acordo definitivo sobre de quem partiu a ideia da banda, mas o resultado, a partir do disco de estreia em 1971, foi inconfundível. Em vez de solos individuais alternados, a banda buscava uma improvisação coletiva, todo mundo moldando a textura ao mesmo tempo. O exemplo mais claro veio em 1977, com "Birdland", tema que Zawinul escreveu como homenagem ao lendário clube de Nova York. À primeira escuta soa quase pop, de tão cantarolável, mas se desdobra em camadas orquestrais que lembram menos um combo de jazz tocando sobre acordes e mais a ambição de Duke Ellington de transformar a própria banda num instrumento só.
Ainda dentro do Weather Report, um baixista desconhecido da Flórida se apresentou aos futuros colegas como "o melhor baixista do mundo". Jaco Pastorius entrou para o grupo em 1976, no álbum "Black Market", embora o baixista titular Alphonso Johnson ainda tocasse a maior parte daquele disco e Jaco aparecesse em só duas faixas, uma delas de sua própria autoria. Foi no ano seguinte, em "Heavy Weather", que Pastorius se firmou como a segunda voz da banda ao lado do sax de Shorter, transformando o baixo elétrico sem trastes num instrumento melódico, capaz de cantar como um metal, com direito a harmônicos e acordes que ninguém tinha tirado daquele instrumento antes. "Teen Town", faixa que ele mesmo compôs para o disco, mostra isso com clareza: uma linha de baixo veloz e entrecortada, composta e solada ao mesmo tempo, algo impensável para um instrumento até então relegado a segundo plano. O talento vinha com um contraponto duro. Pastorius enfrentava um transtorno bipolar que, somado ao abuso de álcool e drogas, corroeu sua carreira ao longo dos anos 1980. Deixou o Weather Report em 1981 e morreu em setembro de 1987, aos 35 anos, depois de ferimentos sofridos numa briga na porta de uma boate na Flórida.
Do outro lado do espectro sonoro, o guitarrista britânico John McLaughlin, que tinha tocado tanto em "In a Silent Way" quanto em "Bitches Brew", formou em 1971 sua própria banda, batizada de Mahavishnu Orchestra em homenagem ao nome espiritual que recebera de seu guru, Sri Chinmoy. Diferente do Weather Report ou do grupo que Chick Corea formaria a seguir, o Mahavishnu não tinha um único naipe de metais: só guitarra, baixo (Rick Laird), bateria (Billy Cobham, o mesmo baterista da banda Dreams citada acima), teclados (Jan Hammer) e o violino de Jerry Goodman fazendo as vezes de voz melódica. Gravado em uma única semana de agosto de 1971, "The Inner Mounting Flame" tocava em volumes e velocidades mais próximos do hard rock, ou mesmo do heavy metal nascente, do que de qualquer tradição jazzística. A faixa "Meeting of the Spirits" abre com um zumbido que lembra um motor entrando em marcha antes de a banda explodir em uníssonos numa velocidade que ainda hoje deixa guitarristas de queixo caído.
Outro veterano da banda elétrica de Davis, o pianista Chick Corea (o mesmo que tocara Fender Rhodes ao lado dele naquela noite no Fillmore West), deixou o grupo e gravou, em fevereiro de 1972, seu próprio disco de estreia como líder, batizado Return to Forever: Joe Farrell na flauta e no sax soprano, Stanley Clarke no baixo, Airto Moreira na bateria e percussão, e a cantora Flora Purim. Gravado para o selo alemão ECM, o álbum só chegaria às lojas americanas em 1975. Aquela primeira formação da banda, de sonoridade quente e aberta ao lirismo brasileiro (Airto e Flora são ambos paulistanos), encontrou sua expressão mais duradoura no disco seguinte, "Light as a Feather", de 1973, cuja faixa de abertura, "Spain", cita um trecho do "Concierto de Aranjuez", do compositor espanhol Joaquín Rodrigo, antes de emplacar um dos temas mais regravados de toda a fusion.
Enquanto os discípulos de Davis exploravam o lado mais denso da fusão, outro ex-integrante de seu quinteto apostava no funk. Herbie Hancock lançou "Head Hunters" em outubro de 1973, trocando a abstração de seus discos anteriores por grooves de pista de dança. O álbum se tornou o mais vendido da história do jazz até ali, recorde que só cairia em 1976, para "Breezin'", do guitarrista George Benson. Um mito menor merece correção. Muita gente supõe que a linha de baixo icônica de "Chameleon" foi tocada no baixo elétrico por Paul Jackson, que de fato está no disco e assina a composição ao lado de Hancock. Na verdade, aquele riff sai do sintetizador ARP Odyssey, tocado pelo próprio Hancock, prova de como os novos instrumentos eletrônicos estavam embaralhando até a pergunta de quem, numa banda de jazz, tocava o quê.
Weather Report: Joe Zawinul, Jaco Pastorius, Alex Acuña, Wayne Shorter e Manolo Badrena
John McLaughlin
■ Para onde foi
O fôlego inicial não durou uma década inteira. O Mahavishnu Orchestra se dissolveu em 1976, entre disputas pessoais e financeiras. O Return to Forever original também não resistiu além de 1977. O Weather Report seguiu tocando até 1986, mas sua fase mais criativa fechou o ciclo com a saída de Jaco Pastorius, em 1981. O próprio Miles Davis, esgotado e com a saúde em colapso, sumiu dos palcos entre 1975 e 1981. Ainda assim, as portas que a fusion arrombou (o volume, os sintetizadores, o groove de dança dentro de um disco de jazz) nunca mais se fechariam. O próximo capítulo desta história, o do Jazz Contemporâneo, retoma exatamente esse gesto numa nova década, quando uma geração que preferia samplear discos a plugar guitarras reinventaria, à sua maneira, a mesma ideia: misturar o jazz com o que os jovens realmente estavam ouvindo.
■ Para ouvir
Miles Davis, "Pharaoh's Dance" (1970): Os vinte minutos que abrem "Bitches Brew", montados a partir das tesouras de Teo Macero na sala de edição.
Weather Report, "Birdland" (1977): A homenagem de Zawinul ao clube de Nova York, orquestral por dentro e cantarolável por fora.
Weather Report, "Teen Town" (1977): A composição do próprio Jaco Pastorius, seu baixo virando instrumento solista.
Mahavishnu Orchestra, "Meeting of the Spirits" (1971): A fusão na sua versão mais veloz e barulhenta.
Return to Forever, "Spain" (1973): O Concierto de Aranjuez de Rodrigo abrindo caminho para um dos temas mais regravados da fusion.
Herbie Hancock, "Chameleon" (1973): O riff de sintetizador que muita gente ainda jura ser um baixo elétrico.
Fontes: Ted Gioia, The History of Jazz; James Lincoln Collier, The Making of Jazz; Julie Coryell e Laura Friedman, Jazz-Rock Fusion: The People, The Music; Miles Davis e Quincy Troupe, Miles: A Autobiografia; pesquisa adicional na web para checagem cruzada de datas, formações e verificação dos links do Spotify.






