A Jornada do Jazz
01
DIXIELAND
(1897-1928)
02
SWING
(1935-1945)
03
BEBOP
(1941-1953)
04
COOL JAZZ
(1949-1958)
05
HARD BOP
(1954-1959)
06
FREE JAZZ
(1959-1968)
07
BOSSA NOVA
(1962-1965)
08
FUSION
(1969-1982)
09
contemporâneo
(1986-hoje)
06 - FREE JAZZ: quebrando as próprias regras
Como um grupo de outsiders decidiu que liberdade também podia significar harmonia, forma e tempo

Ornette Coleman em estúdio. Ao fundo, o trompetista Don Cherry
Numa noite em Baton Rouge, no fim dos anos 1950, o saxofonista Ornette Coleman tocava num baile quando seu solo, cada vez mais distante das notas esperadas, fez os dançarinos pararem no meio da pista. A confusão que se seguiu não ficou só na dança. Depois do show, um bando de valentões cercou Coleman do lado de fora do clube, o espancou até ele desmaiar e jogou seu saxofone tenor na rua. Coleman levou quase dez anos para voltar a tocar tenor, preferindo se concentrar no alto dali em diante. A cena resume bem o que estava por vir. Nenhum outro movimento na história do jazz nasceria em meio a tanta hostilidade, e nenhum músico central da história do gênero teria uma trajetória inicial tão marcada por humilhação e rejeição quanto Coleman.
■ De onde veio
Ônibus dos Freedom Riders que sofreu atentado no Alabama.
No fim dos anos 1950 e ao longo dos anos 1960, a palavra "liberdade" carregava um peso político raro nos Estados Unidos. Vários movimentos ocorreram nesse período turbulento: a pressão sobre a Suprema Corte para a integração racial nas escolas americanas, os ativistas Freedom Riders que percorriam em ônibus os estados do sul desafiando a segregação, o grupo Freedom Summer a favor do registro de eleitores negros e os discursos de Martin Luther King. Tudo isso formava o pano de fundo em que uma nova geração de músicos negros passou a enxergar sua própria música como parte da mesma luta, não como um universo à parte protegido da política.
Antes de passarmos a ver o que ocorria no cenário do jazz, é preciso corrigir um mito comum. Muita gente acredita que a atonalidade no jazz nasceu do nada em 1959, com a chegada de Coleman a Nova York. Anos antes, músicos brancos e estabelecidos já vinham experimentando composições sem centro tonal fixo: o pianista Lennie Tristano gravou peças livres já no fim dos anos 1940, o arranjador Bob Graettinger escreveu para a orquestra de Stan Kenton obras que ignoravam as convenções harmônicas do jazz, e o clarinetista Jimmy Giuffre gravou uma "Fuga" atonal em 1953. A diferença essencial não estava na técnica, mas em quem a praticava e por quê. Esses precursores eram brancos, respeitados, integrados ao sistema. Coleman trabalhava como ascensorista numa loja de departamentos. O pianista Cecil Taylor lavava pratos mesmo depois de já figurar em revistas de jazz. Assim como o Bebop tinha nascido não das estrelas do Swing, mas de seus acompanhantes esquecidos, o Free Jazz nasceria não dos experimentalistas de prestígio acadêmico, mas de um grupo de forasteiros que forçaria, à custa de talento e teimosia, os próprios mestres estabelecidos a segui-los.
■ Como soa
Se o Bebop tinha complicado a harmonia e o Cool Jazz tinha suavizado o volume, o Free Jazz decidiu que a própria ideia de uma sequência fixa de acordes por trás do solo, a base sobre a qual o jazz inteiro tinha sido construído até então, podia simplesmente deixar de existir. Sem acordes predeterminados para seguir, os músicos improvisavam guiados só pelo que os outros estavam tocando naquele instante, uma conversa em tempo real sem roteiro combinado de antemão. O compasso fixo de quatro tempos também podia desaparecer, dando lugar a um fluxo de tempo mais líquido, que se estica e se contrai conforme a energia do momento. Na prática, isso significava que uma gravação como "Free Jazz", de Coleman, podia reunir dois quartetos inteiros tocando ao mesmo tempo, um em cada canal do estéreo, numa espécie de duelo coletivo em que ninguém dava lugar ao outro. Os dois pilares do movimento, porém, soavam radicalmente diferentes entre si. O saxofone de Coleman preservava algo de grito humano, cru e melódico, com raízes fundas no blues do Texas onde ele cresceu. O piano de Cecil Taylor, ao contrário, era uma fuzilaria de notas, denso e percussivo, herdeiro de sua formação clássica com Stravinsky e Bartók. Um cantava a dor. O outro a martelava.
■ Quem ouvir
John Coltrane
Pharoah Sanders
Nascido em Fort Worth, no Texas, ainda durante a Grande Depressão, Ornette Coleman aprendeu sozinho os rudimentos do saxofone alto, com tantos tropeços que chegou a decidir, errado, que a escala musical começava na nota lá em vez de dó. Expulso da banda marcial do colégio, ridicularizado em sessões de jazz, Coleman só encontrou companheiros de verdade no Hillcrest Club de Los Angeles, ao lado do trompetista Don Cherry, do baixista Charlie Haden e do baterista Billy Higgins. A estreia do quarteto em Nova York, no Five Spot, em novembro de 1959, dividiu a plateia entre os que saíam no meio do show e os que ficavam hipnotizados. O breve contrato de duas semanas se estendeu por dois meses. Em dezembro de 1960, Coleman gravaria o próprio disco que batizaria o movimento inteiro, "Free Jazz". O crítico James Lincoln Collier apontaria, décadas depois, uma limitação real por trás da genialidade. Coleman nunca aprendeu a ler ou escrever música corretamente, e ele próprio admitia não saber como um solo ia soar antes de tocá-lo, ao contrário de um Coleman Hawkins, que sempre soube exatamente aonde cada nota o levaria.
Em Nova York, Cecil Taylor vinha de um caminho quase oposto ao de Coleman: educação musical refinada desde os cinco anos de idade, conservatório de música, um repertório de referências que ia de Duke Ellington a Bartók. Mesmo assim, sua carreira comercial andava tão mal quanto a de Coleman: "Meus shows têm sido basicamente um concerto por ano, preenchido por um ou dois bicos curtos em boate ou cafeteria", contaria Taylor a um biógrafo, enquanto sobrevivia trabalhando em cozinhas de restaurantes. Seu ataque ao piano, descrito por quem o ouviu como uma "fuzilaria" de acordes densos, encontraria sua expressão mais completa no álbum "Unit Structures", de 1966.
Quando Coleman chegou a Nova York, John Coltrane ainda tocava dentro da harmonia tradicional, assim como o saxofonista Eric Dolphy, que logo passou a testar os limites daquela harmonia ao lado do próprio Coleman. Coltrane, o mais respeitado saxofonista mainstream de sua geração, levou um caminho mais lento até o mesmo destino. Só mergulharia de vez no Free Jazz em 1965, quando gravou "Ascension", uma peça de mais de quarenta minutos claramente inspirada no próprio disco de Coleman, se cercando de nomes emergentes do movimento como Pharoah Sanders. Ver um músico do calibre de Coltrane validar publicamente aquele som foi, para o Free Jazz, uma virada de página tão importante quanto qualquer disco.
Mais visceral do que qualquer um deles, o saxofonista Albert Ayler tocava frases que soavam menos a improviso jazzístico e mais a um grito ancestral, com raízes tanto no gospel quanto nas bandas militares em que havia servido. Influenciado diretamente por Taylor, Ayler levaria o movimento a um território ainda mais cru e desafiador, quase sem melodia reconhecível na maior parte do tempo.
Cecil Taylor
Albert Ayler
■ Para onde foi
O próprio historiador Lincoln Collier, que via o Free Jazz com desconfiança, reconheceu que a experiência tinha ganhado "um lugar honroso" na história do jazz, mesmo argumentando que a maioria dos ouvintes simplesmente não suporta bem a ausência total de ordem musical reconhecível. Tinha razão em parte. Passada a novidade, boa parte do próprio Free Jazz também se tornaria previsível à sua maneira, uma "certa uniformidade sombria", nas palavras do escritor Ted Gioia. Mas nenhuma das duas críticas apaga o essencial. Pela primeira vez, um grupo de outsiders tinha forçado toda a tradição do jazz a repensar do zero o que era, afinal, permitido. Enquanto essa ruptura radical sacudia o jazz de dentro para fora, do outro lado do equador uma corrente bem diferente ganhava força, não pela demolição de regras antigas, mas pelo encontro do jazz com uma tradição musical inteiramente nova, a batida suave que vinha do Brasil.
■ Para ouvir
Ornette Coleman Quartet, "Lonely Woman" (1959): A melodia mais comovente do disco que apresentou Coleman ao mundo.
Ornette Coleman Double Quartet, "Free Jazz" (1960): O duelo de dois quartetos que deu nome ao movimento inteiro.
Cecil Taylor, "Unit Structure/As Of A Now/Section" (de "Unit Structures", 1966): A fuzilaria pianística de Taylor em plena maturidade.
John Coltrane, "Ascension" (1965): A conversão pública do mestre do saxofone mainstream ao Free Jazz.
Count Basie Orchestra, "One O'Clock Jump" (1937): A batida líquida de Kansas City em estado puro.
Fontes: Ted Gioia, The History of Jazz; Ted Gioia, Como ouvir Jazz; Eric Hobsbawm, A História Social do Jazz; James Lincoln Collier, The Making of Jazz; Gunther Schuller, Early Jazz; Gunther Schuller, El Jazz sus raices y su desarrollo; pesquisa adicional na web para checagem cruzada e verificação dos links do Spotify.





