explore o jazz panorama

A Jornada do Jazz

01

DIXIELAND

(1897-1928)

02

SWING

(1935-1945)

03

BEBOP

(1941-1953)

04

COOL JAZZ

(1949-1958)

05

HARD BOP

(1954-1959)

06

FREE JAZZ

(1959-1968)

07

BOSSA NOVA

(1962-1965)

08

FUSION

(1969-1982)

09

contemporâneo

(1986-hoje)

01 - DIXIELAND: As origens em Nova Orleans

O jazz das ruas, dos bailes e dos funerais que inventou um jeito novo de fazer música

Ruas de Nova Orleans durante o Mardi Gras de 1910

Em Nova Orleans, um enterro tem duas partes. A caminho do cemitério, a banda toca devagar uma marcha fúnebre pesada, quase arrastada, do tipo que se ouve em qualquer lugar do mundo. Na volta, tudo muda. O mesmo trombone, o mesmo bombardino, a mesma caixa e o bumbo agora tocam rápido, sincopado, quase dançante, e a multidão que segue atrás (o chamado "segundo cortejo") sai pulando pelas ruas. Era assim que se fazia música em Nova Orleans, na virada do século 19 para o 20, mesmo num funeral. E foi ali, entre bandas de metais, bailes de subúrbio e desfiles de rua, que nasceu o que hoje chamamos de jazz.

■ De onde veio

Nova Orleans não era uma cidade qualquer. Porto cosmopolita na foz do Mississippi, viveu décadas de prosperidade depois que os Estados Unidos compraram da França a Louisiana em 1803. No fim do século 19, essa fartura já tinha ficado para trás. A ferrovia substituiu o vapor fluvial, o estado foi à falência e epidemias de febre amarela reduziam a expectativa de vida da população negra a pouco mais de trinta e seis anos. É nesse contraste que a paixão da cidade por desfiles, bailes e festas de rua faz sentido. Quanto mais dura a vida cotidiana, mais a comunidade se agarrava à celebração.

Um mito comum atribui o nascimento do jazz a Storyville, o bairro de prostituição ativo na cidade entre 1897 e 1917. É uma história sedutora, mas os historiadores, de Ted Gioia ao pesquisador Donald Marquis, foram atrás dos fatos e encontraram outra realidade. Bandas de jazz raramente tocavam dentro dos bordéis, que preferiam pianistas solo, mas sim nos cabarés e salões de dança do entorno. O próprio contrabaixista Pops Foster contou que, por anos, nem sabia o que era "Storyville". Para os músicos da época, aquilo era só "a Zona". A explicação mais simples também é a melhor. O jazz nasceu das bandas de metais, contratadas para tudo (enterro, casamento, piquenique, disputa esportiva), encontrando a tradição afro-americana dos spirituals e do blues com as marchas e quadrilhas de origem europeia. Essas marchas foram introduzidas pelos créoles, descendentes de franceses e escravizados, iniciados na música mais "erudita" da cidade. Um acontecimento político foi fator fundamental para a fusão dos movimentos musicais na Louisiana. Uma lei estadual de 1894 classificou todas as pessoas de ascendência africana como uma única categoria racial perante a lei, empurrando os créoles (de etnia mista), até então uma casta à parte, para dentro da mesma vida musical dos negros "de rio acima". Foi esse encontro forçado, entre o treino formal dos créoles e a sonoridade mais crua e sincopada dos músicos sem formação clássica, que gerou o jazz.

Cartão postal de Basin Street, em Storyville,
Nova Orleans - 1908

E o próprio nome dessa música nova guarda um mistério que intriga até hoje quem só conhece a versão de bar. A explicação mais repetida costuma apontar para uma raiz africana ou crioula, nascida na própria Nova Orleans. Em agosto de 1917, o publicitário Walter Kingsley chegou a escrever, num jornal de Nova York, que a palavra vinha do dialeto crioulo documentado pelo folclorista Lafcadio Hearn, com o sentido de "acelerar as coisas" ou "criar agitação". Só que ninguém jamais encontrou essa passagem nos escritos reais de Hearn e pesquisadores como Lawrence Gushee hoje consideram a citação provavelmente inventada. Outras lendas populares, como a de que o nome vinha do perfume de jasmim usado pelas mulheres da zona de meretrício da cidade, ou do termo antigo "jezebel" para prostituta, também não resistem à checagem de documentos.

A origem real é bem menos poética e nasceu longe de Nova Orleans. Em 2 de abril de 1912, o Los Angeles Times publicou a frase de um lançador de beisebol de uma liga menor chamado Ben Henderson sobre sua nova curva enganosa. "Eu tenho uma curva nova esse ano, e vou lançar uma ou duas amanhã", disse ele. "Eu chamo ela de bola jazz, porque ela balança e simplesmente ninguém consegue fazer nada com ela." No início de março de 1913, o cronista esportivo Ernest "Scoop" Gleeson usou a mesma palavra no San Francisco Bulletin para descrever o ânimo dos jogadores do time San Francisco Seals, recém-chegados de um acampamento de pré-temporada, cheios daquele "velho jazz" que prometia "derrubar os torcedores de tanto entusiasmo". Na gíria esportiva da Califórnia daquele momento, jazz não tinha nada a ver com música. Significava disposição, energia, pique, provavelmente puxado de "jasm", uma gíria americana ainda mais antiga, de 1860, com o mesmo sentido.

Ben Henderson teria batizado o Jazz

Só por volta de 1915, em Chicago, a palavra migrou para a música. O banjoísta Bert Kelly, que tinha passado pelo mesmo acampamento dos Seals em 1913, formou uma das primeiras bandas a se apresentar sob esse nome. Ao mesmo tempo, bandas de Nova Orleans como a do trombonista Tom Brown chegavam à cidade tocando aquele som sincopado e passaram a ser anunciadas como bandas de "jass", grafia que ainda oscilava. Foi só quando a mesma banda que gravaria "Livery Stable Blues" em 1917 se firmou como Original Dixieland Jazz Band que o nome grudou de vez na música vinda de Nova Orleans, embora tivesse nascido, alguns anos antes, bem longe dali, num campo de beisebol da Califórnia.

■ Como soa

O jazz de Nova Orleans não tem solista fixo. Os instrumentos conversam entre si. O trombone segura as notas graves, um contraponto lento e firme. O clarinete corre por cima, em frases rápidas e ornamentadas. O cornetim (ou trompete) fica no meio, puxando a melodia principal, com menos frescor técnico que o clarinete, mas com notável empuxo rítmico. Atrás de tudo, uma "seção rítmica" composta de tambores, banjo ou violão e tuba ou contrabaixo. O baterista Baby Dodds descreveu certa vez a formação clássica de uma banda de rua: trombones na frente, depois os instrumentos graves, depois clarinetes, e por fim os cornetins, com só dois tambores fechando a fila. O efeito que hoje chamamos de "balanço" (swing) vinha de pequenos atrasos calculados em relação ao tempo forte, de notas dobradas na terça e na sétima (as blue notes, com aquele som levemente "errado" ao ouvido europeu, justamente o sabor do blues) e de um vibrato rápido no fim de cada nota longa, quase imitando o tremor de uma voz humana. Os músicos da época falavam mesmo em fazer o instrumento "cantar" ou "chorar". A ambição era soar como gente falando, não como um instrumento afinado à perfeição.

■Quem ouvir

Original Dixieland Jazz Band

Kid Ory

Louis Armstrong

A lenda aponta Buddy Bolden como o primeiro jazzista da história. Ele foi um cornetista que teria inventado o estilo ainda no fim do século 19. O problema é que nenhuma gravação sua sobreviveu, e até sua biografia é discutida. Ted Gioia registra seu nascimento em 1877, mas o pesquisador Samuel Charters, citado pelo escritor e historiador James Lincoln Collier, aponta 1868 e chega a duvidar se todas as histórias contadas sobre "Bolden" são mesmo sobre a mesma pessoa. O que sobra, sem gravação nenhuma para provar nada, é reputação. Contemporâneos o descreviam como o primeiro a tocar aquele estilo "malandro" de rag e blues que os créoles com apuro musical mais tradicional torciam o nariz para ouvir.

Ironicamente, uma música de raiz profundamente afro-americana teve seu primeiro registro comercial feito por músicos brancos. Em 1917, cinco músicos brancos formaram a Original Dixieland Jazz Band e gravaram "Livery Stable Blues", o primeiro disco de jazz da história, um ano antes de qualquer banda negra ter essa chance. Esse registro fonográfico pioneiro também colecionou seus próprios mitos. Por décadas se repetiu que o bumbo tinha sido deixado de fora da gravação porque faria a agulha do gramofone pular, uma história contada até por biógrafos sérios. James Lincoln Collier foi conferir o disco e encontrou o bumbo lá, bem audível, do início ao fim. Nem tudo que vira lenda em jazz resiste a uma segunda escuta.

Só em 1922 uma banda negra conseguiu gravar por conta própria. O trombonista Kid Ory gravou "Ory's Creole Trombone" em Los Angeles. No ano seguinte, em Chicago, o cornetista King Oliver liderava a Creole Jazz Band, que revelaria ao mundo um jovem trompetista de segunda voz chamado Louis Armstrong. No solo de surdina de "Dippermouth Blues", construído sobre poucas notas repetidas com variações mínimas, a genialidade de Oliver não estava em tocar rápido, mas em fazer o cornetim soar quase humano. No clarinete, Sidney Bechet, ouvido em "Wild Cat Blues" (1923) ao lado de Clarence Williams, já tinha impressionado o maestro suíço Ernest Ansermet anos antes, numa turnê pela Europa em que foi chamado de "um artista genial". Ninguém organizou essa linguagem musical coletiva com mais engenho que o pianista Jelly Roll Morton, que se autodenominava, sem modéstia nenhuma, "o maior compositor de músicas quentes do mundo". Seus arranjos para os Red Hot Peppers, como "Black Bottom Stomp" (1926), embutem uma arquitetura quase orquestral em três minutos de disco. Suas harmonias às vezes soam desajeitadas, mais ambiciosas do que sua técnica sustentava. Mas poucos tiraram tanto de uma banda pequena quanto ele.

King Oliver´s Creole Jazz Band

Jelly Roll Morton

Clarence Williams

■ Para onde foi

Entre 1916 e a década de 1920, a Grande Migração levou centenas de milhares de negros americanos rumo ao Norte, fugindo da segregação do Sul em busca de trabalho. Foi em Chicago, não em Nova Orleans, que boa parte dessa história realmente se completou. E foi lá que o equilíbrio coletivo da música, com ninguém se destacando sobre os outros, começou a ruir. O mesmo Louis Armstrong que mal tinha espaço para um solo ao lado de King Oliver logo se tornaria o primeiro grande solista da história do jazz. Esse deslocamento, do time para o indivíduo, é a semente da próxima fase, o Swing.

■ Para ouvir

Original Dixieland Jazz Band, "Livery Stable Blues" (1917): a primeira gravação de jazz da história.

Kid Ory's Sunshine Orchestra, "Ory's Creole Trombone" (1922): a primeira gravação de jazz liderada por uma banda negra.

King Oliver's Creole Jazz Band, "Dippermouth Blues" (1923): o solo de surdina que virou referência, com um jovem Louis Armstrong na segunda trompa.

Clarence Williams' Blue Five com Sidney Bechet, "Wild Cat Blues" (1923): o clarinete e o saxofone soprano de um dos grandes virtuoses créoles.

Jelly Roll Morton & His Red Hot Peppers, "Black Bottom Stomp" (1926): o auge da arquitetura coletiva do estilo Nova Orleans.

Louis Armstrong & His Hot Seven, "Potato Head Blues" (1927): o solista que já anunciava a próxima fase do jazz.

Fontes: Ted Gioia, The History of Jazz; Ted Gioia, Como ouvir Jazz; Eric Hobsbawm, A História Social do Jazz; James Lincoln Collier, The Making of Jazz; Gunther Schuller, Early Jazz; Gunther Schuller, El Jazz sus raices y su desarrollo; pesquisa adicional na web para checagem cruzada e verificação dos links do Spotify.