A Jornada do Jazz
01
DIXIELAND
(1897-1928)
02
SWING
(1935-1945)
03
BEBOP
(1941-1953)
04
COOL JAZZ
(1949-1958)
05
HARD BOP
(1954-1959)
06
FREE JAZZ
(1959-1968)
07
BOSSA NOVA
(1962-1965)
08
FUSION
(1969-1982)
09
contemporâneo
(1986-hoje)
02 - SWING: a era das big bands
Quando o jazz virou trilha sonora nacional e fez um país dançar junto

Fachada do Savoy Ballroom, no Harlem - Nova York
Na noite de 11 de maio de 1937, o Savoy Ballroom do Harlem promoveu uma disputa de bandas. De um lado, a orquestra da casa, comandada pelo baterista Chick Webb, do outro, um astro do momento, o clarinetista Benny Goodman, coroado pela imprensa como "o Rei do Swing". Quatro mil pessoas lotaram o salão e outras cinco mil ficaram na rua, sem conseguir entrar. No dia seguinte, a revista Metronome estampou o resultado sem meias palavras: "Chick Webb derrota Benny Goodman". Um band leader negro do Harlem enfrentou de igual para igual o maior nome branco do momento e o havia batido, em pleno território segregado dos Estados Unidos. Eis o retrato mais fiel de como o jazz, na segunda metade dos anos 1930, tinha deixado de ser música de nicho para se tornar a trilha sonora oficial de uma geração inteira.
■ De onde veio
A Grande Depressão Econômica quase matou o jazz. As vendas de discos nos Estados Unidos, que passavam de cem milhões de unidades em 1927, despencaram para seis milhões em 1932. Músicos veteranos da era do Dixieland, de Sidney Bechet a King Oliver, viram suas carreiras minguarem junto com a economia do país. Mas a mesma crise abriu caminho para o que viria a seguir. Com salários em queda e desemprego em alta, contratar uma dúzia de músicos para uma big band custava relativamente pouco. A orquestra grande, antes um luxo, virou formato padrão. Ao mesmo tempo, o rádio deixou de ser novidade cara para se tornar item de sala de estar. No início dos anos 1920, apenas uma em cada dez mil casas americanas tinha um aparelho. Uma década depois, era a maioria delas. Pela primeira vez, uma orquestra conseguia atingir o país inteiro numa única noite.
A base musical para esse salto já existia havia anos. No Roseland Ballroom de Nova York, ainda em meados dos anos 1920, o pianista Fletcher Henderson e seu arranjador Don Redman tinham inventado, sem alarde, o vocabulário que a era do Swing só precisaria amplificar. Bastava dividir a orquestra em naipes (metais, palhetas, ritmo) em diálogo constante, em vez de deixar um único solista se destacar sobre um acompanhamento neutro. Foi essa mesma arquitetura, amadurecida ao longo de anos em salões de dança, que Benny Goodman adotaria como modelo quando chegou sua vez, uma década depois.
O clarinetista Benny Goodman e sua orquestra, nos anos 1930
O show de Goodman no Palomar Ballroom de Los Angeles, em 21 de agosto de 1935, costuma ser contado como o nascimento instantâneo da era do Swing. A realidade foi bem menos elegante. Nos catorze meses anteriores, Goodman colecionou fracassos: uma casa noturna em Nova York fechou poucas semanas depois de contratá-lo, uma turnê pela Europa nunca saiu do papel e uma plateia hostil em Denver quase cancelou seu contrato ainda na estrada. O que salvou a banda foi o programa de rádio Let's Dance, da NBC, transmitido tarde da noite na Costa Leste, mas bem no horário nobre na Califórnia, graças ao fuso horário. Quando a banda chegou a Los Angeles, o público já a conhecia de cor. A explosão do espetáculo no Palomar não foi um lance de sorte. Foi o resultado tardio de uma aposta de rádio que quase não deu certo.
■ Como soa
O som do Swing nasce da divisão em naipes que o pianista Fletcher Henderson e seu arranjador Don Redman, os mesmos que ensaiaram esse vocabulário no Roseland Ballroom ainda nos anos 1920, tinham consolidado: os metais lançam uma frase, as palhetas respondem, e a seção rítmica costura tudo por baixo, como uma conversa bem ensaiada entre grupos de vozes. É um design coletivo, mas plenamente orquestrado, ao contrário do contraponto solto do Dixieland. A diferença mais decisiva, porém, estava embaixo, na batida. A banda de Goodman, com o baterista Gene Krupa, martelava o tempo em quatro tempos bem marcados, quase mecânicos. Já a seção rítmica de Count Basie, em Kansas City, com Walter Page no contrabaixo, Jo Jones na bateria e Freddie Green no violão, produzia um pulso mais líquido, apoiado no chimbal da bateria em vez do bumbo. Se a batida de Krupa lembrava um relógio, a de Basie lembrava uma onda, contínua, sem os cortes secos que marcavam o jazz mais antigo. E, no fim das contas, era música para dançar. Foi no próprio Savoy que nasceu o Lindy Hop, dança batizada em homenagem ao aviador Charles Lindbergh, que logo se espalharia pelo país sob o nome de jitterbug.
O pianista Fletcher Henderson
■ Quem ouvir
Count Basie Orchestra
Coleman Hawkins
Ella Fitzgerald
Em Nova York, na própria orquestra que inventou o vocabulário do Swing, Fletcher Henderson era, por temperamento, um improvável revolucionário: reservado, mais interessado em química do que em liderança, incapaz de impor disciplina à própria banda. Ainda assim, reuniu no mesmo naipe de saxofones Coleman Hawkins, Benny Carter e, por um breve período em 1934, Lester Young, um elenco que nenhum outro líder de sua geração igualou.
No Cotton Club do Harlem, Duke Ellington construía um som tão pessoal que parecia autoral em cada detalhe. Mas o próprio Ellington reconhecia que boa parte da mágica vinha de ouvir bem seus músicos, como o trompetista Bubber Miley, inventor daquele efeito de surdina que fazia o metal "chorar". "Sou o maior ouvinte do mundo", disse ele certa vez, frase que era ao mesmo tempo modéstia e a mais precisa descrição de seu método.
Já Benny Goodman usou sua posição de astro branco para formar, em 1935, um trio com o pianista negro Teddy Wilson, um dos primeiros grupos racialmente integrados a se apresentar publicamente nos Estados Unidos. Um gesto corajoso. Mas vale lembrar que artistas negros da mesma época, do próprio Henderson a Chick Webb, nunca tiveram o mesmo acesso a contratos, hotéis e salários que a cor da pele garantia a Goodman.
Enquanto isso, bem longe de Nova York, Kansas City desenvolvia seu próprio som. Foi para lá que Lester Young voltou depois de sua breve passagem por Nova York, e foi ao lado de Count Basie que ele encontrou o fraseado mais leve e fluido que se tornaria a marca de seu saxfone tenor, quase o oposto do som robusto de Coleman Hawkins, o primeiro tenorista a se tornar solista estrela, na banda de Fletcher Henderson. Numa jam session lendária no clube Cherry Blossom, os saxofonistas locais encurralaram o próprio Hawkins, de visita à cidade, até de madrugada. "Hawkins era rei até encontrar aqueles malucos tenores de Kansas City", contaria a pianista Mary Lou Williams, testemunha da noite.
De volta ao Harlem, no Savoy, Chick Webb reinava como baterista e como empresário de talentos. Descobriu Ella Fitzgerald aos dezessete anos, num concurso de calouros no Apollo, e a levou ao estrelato com "A-Tisket, A-Tasket" em 1938. Quando Webb morreu de tuberculose no ano seguinte, Ella assumiu a liderança da orquestra, um posto raríssimo para uma mulher negra e ainda adolescente na música da época.
Duke Ellington e sua banda
Chick Webb
■ Para onde foi
A Segunda Guerra Mundial recrutou músicos para as forças armadas, racionou gasolina para as turnês e, ao lado da recuperação econômica do pós-guerra, encareceu manter uma orquestra de quinze músicos. O formato que a Depressão tinha tornado viável, a prosperidade tornaria dispendioso demais. Mas o fim visível do Swing escondia uma mudança mais silenciosa. Cansados de tocar arranjos fixos noite após noite, músicos como os da própria banda de Basie começaram a se reunir de madrugada, fora do expediente, em clubes como o Minton's Playhouse do Harlem, só para improvisar sem as amarras de uma partitura. A seção rítmica que Basie, Page e Jones haviam inventado para fazer a orquestra suingar já continha, sem saber, o esqueleto rítmico da próxima revolução do jazz.
■ Para ouvir
Fletcher Henderson & His Orchestra, "King Porter Stomp": O arranjo em naipes que serviria de modelo para toda a era do Swing.
Duke Ellington, "East St. Louis Toodle-Oo" (1926): O som "growl" de Bubber Miley e o início do estilo Ellington.
Benny Goodman, "Sing, Sing, Sing" (1937): O hino que definiu o som do Swing para o grande público.
Jones-Smith Incorporated (Count Basie e Lester Young), "Oh, Lady Be Good!" (1936): O solo de Young que anunciava um jazz mais leve e fluido.
Count Basie Orchestra, "One O'Clock Jump" (1937): A batida líquida de Kansas City em estado puro.
Ella Fitzgerald & Chick Webb, "A-Tisket, A-Tasket" (1938): O hit que projetou Ella Fitzgerald ao estrelato.
Fontes: Ted Gioia, The History of Jazz; Ted Gioia, Como ouvir Jazz; Eric Hobsbawm, A História Social do Jazz; James Lincoln Collier, The Making of Jazz; Gunther Schuller, Early Jazz; Gunther Schuller, El Jazz sus raices y su desarrollo; pesquisa adicional na web para checagem cruzada e verificação dos links do Spotify.







