- Estilo
- Dixieland
- Gravadora
- Victor
- Gravação
- 15 de setembro de 1926, 21 de setembro de 1926, 16 de dezembro de 1926, 4 de junho de 1927, 10 de junho de 1927
- Estúdio
- Webster Hotel e 952 North Michigan Avenue, Chicago
- Lançamento
- 1926
Às nove da manhã de 15 de setembro de 1926, Jelly Roll Morton entrou no Webster Hotel, onde a Victor tinha montado um estúdio provisório. Levava consigo sete músicos escolhidos a dedo, quase todos vindos de Nova Orleans, e uma coisa que praticamente nenhuma banda de jazz da época levava para uma gravação: partituras ensaiadas até a exaustão. Morton pagava bem e cobrava ensaio. O que saiu daquela manhã foram quatro lados, entre eles "Black Bottom Stomp", e a demonstração de que uma sessão de gravação podia ser tratada como obra composta, não como registro de uma noite qualquer.
O contrato com a Victor era, por si só, uma anomalia. Os chamados race records, discos gravados por artistas negros para um público negro, eram o feijão com arroz de selos como OKeh, Gennett e Brunswick. A Victor, a gravadora tecnicamente mais avançada do país, mal se interessava por eles. Ninguém sabe direito como Morton conseguiu aquele contrato de quatro anos. Sabe-se o que ele fez com o contrato, que é o que interessa.
A diferença aparece já na primeira audição, e fica mais clara se você tiver ouvido os Hot Five de Louis Armstrong, gravados na mesma cidade, nos mesmos anos, com dois músicos em comum: Kid Ory no trombone e Johnny St. Cyr no banjo tocaram para os dois. Armstrong apostava tudo no solista, e a banda existia para lhe dar chão. Morton apostava no contrário. "Black Bottom Stomp" tem sete seções distintas em pouco mais de três minutos, herança direta da estrutura do ragtime, e a cada troca de seção muda também quem está tocando: ora a banda inteira em contraponto, ora o cornetim sozinho contra breaks em stop time, ora o banjo acompanhando um solo em silêncio quase total. Nada ali é acaso. É um arquiteto conduzindo do banco do piano.
"Dead Man Blues", gravado seis dias depois, mostra o outro lado do método. A faixa abre com um diálogo cômico e uma citação de marcha fúnebre, uma piada de vaudeville que envelheceu mal, e logo depois entrega um dos momentos mais bonitos de todo o jazz dos anos 1920: um trio de clarinetes tocando uma passagem escrita, harmonizada, com Omer Simeon, Barney Bigard e Darnell Howard entrelaçados. Não é improviso. É composição para conjunto pequeno, algo que ninguém mais estava fazendo naquele momento.
Seria falso vender Morton como gênio sem arestas. O piano dele, ouvido dentro da banda, não é o instrumento mais forte desses discos, e suas harmonias às vezes soam desajeitadas, mais ambiciosas do que a técnica sustentava. As introduções faladas e os efeitos sonoros de buzina e relincho, que faziam rir em 1926, hoje atrapalham mais do que ajudam. E os Red Hot Peppers eram uma banda de estúdio: montada para gravar, nunca levada à estrada, desfeita ao fim de cada sessão.
Morton também era, por conta própria, o maior propagandista de si mesmo. Cartão de visita impresso, diamante cravado no dente da frente e a alegação, repetida por escrito, de ter inventado o jazz em 1902. A alegação é falsa, e o jazz não foi inventado por ninguém sozinho. Mas ela revela algo verdadeiro sobre o personagem: ele entendeu antes dos outros que aquela música podia ser tratada como autoria, com nome e assinatura, e não como folclore anônimo saído de Nova Orleans.
O reinado durou pouco. Em 1930 o nome Red Hot Peppers já tinha sumido dos discos, e as orquestras de swing fizeram o método de Morton soar antiquado em poucos anos. Ele morreu em 1941, em larga medida esquecido, ainda reclamando o crédito pela invenção do gênero. A ironia é que a ideia central dele, escrever para um grupo pequeno de modo que composição e improviso convivam sem que um sufoque o outro, voltaria com força na década seguinte, na orquestra de um pianista de Washington que ouvia muito bem seus próprios músicos.
Faixas
As 33 tomadas registradas pelos Red Hot Peppers em Chicago, entre 15 de setembro de 1926 e 10 de junho de 1927, na ordem das sessões e conforme a discografia de matrizes da Victor. Cada tomada é uma execução distinta, com número de matriz próprio, e várias delas só vieram a público décadas depois. Salvo indicação em contrário, as composições são de Jelly Roll Morton; "Smokehouse Blues" e "Cannon Ball Blues" ficam sem crédito porque a autoria não fechou em duas fontes.
Webster Hotel, 15 de setembro de 1926
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01 - Black Bottom Stomp (Jelly Roll Morton)
02 - Smokehouse Blues
03 - The Chant (1ª tomada) (Mel Stitzel)
04 - The Chant (2ª tomada) (Mel Stitzel)
Webster Hotel, 21 de setembro de 1926
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01 - Sidewalk Blues (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
02 - Sidewalk Blues (3ª tomada) (Jelly Roll Morton)
03 - Dead Man Blues (1ª tomada) (Jelly Roll Morton)
04 - Dead Man Blues (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
05 - Steamboat Stomp (Jelly Roll Morton)
Webster Hotel, 16 de dezembro de 1926
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01 - Someday Sweetheart (2ª tomada) (John e Reb Spikes)
02 - Someday Sweetheart (3ª tomada) (John e Reb Spikes)
03 - Grandpa's Spells (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
04 - Grandpa's Spells (3ª tomada) (Jelly Roll Morton)
05 - Original Jelly Roll Blues (1ª tomada) (Jelly Roll Morton)
06 - Original Jelly Roll Blues (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
07 - Doctor Jazz (King Oliver e Walter Melrose)
08 - Cannon Ball Blues (1ª tomada)
09 - Cannon Ball Blues (2ª tomada)
952 North Michigan Avenue, 4 de junho de 1927
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01 - Hyena Stomp (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
02 - Hyena Stomp (3ª tomada) (Jelly Roll Morton)
03 - Billy Goat Stomp (1ª tomada) (Jelly Roll Morton)
04 - Billy Goat Stomp (3ª tomada) (Jelly Roll Morton)
05 - Wild Man Blues (1ª tomada) (Jelly Roll Morton e Louis Armstrong)
06 - Wild Man Blues (3ª tomada) (Jelly Roll Morton e Louis Armstrong)
07 - Jungle Blues (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
08 - Jungle Blues (3ª tomada) (Jelly Roll Morton)
952 North Michigan Avenue, 10 de junho de 1927
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01 - Beale Street Blues (1ª tomada) (W. C. Handy)
02 - Beale Street Blues (2ª tomada) (W. C. Handy)
03 - The Pearls (2ª tomada) (Jelly Roll Morton)
04 - The Pearls (3ª tomada) (Jelly Roll Morton)
952 North Michigan Avenue, 10 de junho de 1927, em trio
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01 - Wolverine Blues (1ª tomada) (Jelly Roll Morton, letra de John e Reb Spikes)
02 - Wolverine Blues (2ª tomada) (Jelly Roll Morton, letra de John e Reb Spikes)
03 - Mr. Jelly Lord (Jelly Roll Morton)
Créditos
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Jelly Roll Morton, piano, direção e arranjos (todas as sessões; voz em "Doctor Jazz")
George Mitchell, cornetim (todas as sessões)
Kid Ory, trombone (sessões de 1926)
Omer Simeon, clarinete e clarone (sessões de 1926)
Johnny St. Cyr, banjo e violão (sessões de 1926)
John Lindsay, contrabaixo (sessões de 1926)
Andrew Hilaire, bateria (sessões de 1926)
Barney Bigard, clarinete (21 de setembro de 1926)
Darnell Howard, clarinete e violino (21 de setembro e 16 de dezembro de 1926)
Marty Bloom, efeitos sonoros (21 de setembro de 1926)
Clarence Black, violino ("Someday Sweetheart")
Gerald Reeves, trombone (sessões de junho de 1927)
Johnny Dodds, clarinete (sessões de junho de 1927)
Stump Evans, sax alto (sessões de junho de 1927)
Bud Scott, violão (sessões de junho de 1927)
Quinn Wilson, tuba (sessões de junho de 1927)
Baby Dodds, bateria (sessões de junho de 1927)
Lew LeMar, efeitos sonoros ("Hyena Stomp" e "Billy Goat Stomp")
A edição Birth of the Hot, linkada nos dois serviços, reúne 23 destas gravações, escolhendo uma ou duas tomadas de cada título. A lista acima documenta as sessões inteiras.
Ouvir no Spotify Ouvir no Apple MusicEste disco pertence à fase DIXIELAND, que você pode conhecer na nossa JORNADA DO JAZZ.






